Capítulo IV — I Tessalonicenses 4:1-12

APLICAÇÃO PRÁTICA

"VOSSA SANTIFICAÇÃO"

"Finalmente, irmãos, vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus, que assim como recebestes de nós, de que maneira convém andar e agradar a Deus, assim andai, para que abundeis cada vez mais.
"Porque vós bem sabeis que mandamentos vos temos dado pelo Senhor Jesus.
"Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição;
"Que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra;
"Não na paixão da concupiscência, como os gentios, que não conhecem a Deus.
"Ninguém oprima ou engane a seu irmão em negócio algum, porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos.
"Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação.
"Portanto, quem despreza isto não despreza ao homem, mas sim a Deus, que nos deu também o Seu Espírito Santo."
— I Tessalonicenses 4:1-8


É um fato bem conhecido que nas epístolas do Apóstolo Paulo, o ensinamento doutrinal geralmente, senão sempre, é seguido da aplicação prática. Aqui, em I Tessalonicenses, isto também é verdade, mas com uma variação. Nos Capítulos 1-3 ele ensina doutrinas importantes ao recordar seu ministério entre eles e a obra de Deus dentro deles. Então segue-se a aplicação prática, mas depois vem uma passagem extensa sobre a vinda do Senhor, seguida por uma exortação no fechamento. Porque esta variação? As divisões gerais de I e II Tessalonicenses não são repartidas em fé, amor e esperança, nesta ordem? Nos Capítulos 1-3 ele recorda como a obra em Tessalônica começou, como por fé os tessalonicenses não apenas viraram a Cristo, mas se mantiveram firmes Nele. Então, no Capítulo 4, o assunto é o amor, a santificação deles para Deus. Isto, por sua vez, é seguido pela seção sobre a vinda do Senhor para os seus, a nossa "bem-aventurada esperança".

Sendo assim, agora entramos na seção prática de I Tessalonicenses, e podemos ter certeza de que é tanto a Palavra de Deus para nós quanto qualquer outra parte das epístolas de Paulo.

Muitos crentes gostam de estudar as grandes verdades da Bíblia e regozijam na verdade dispensacional; a Bíblia veio a significar muito mais para eles desde que aprenderam a manejá-la bem (dividi-la corretamente). Mas algumas destas mesmas não têm tanta vontade em ver estas grandes verdades serem postas em prática nas suas vidas. Elas não querem que sua conduta seja discutida.

Porém, como já vimos, consistentemente nas epístolas de Paulo ele segue os seus grandes ensinamentos com exortações relativas à aplicação prática destes ensinamentos. De fato, de que adianta entender as grandes verdades das Escrituras, e as divisões dispensacionais dela, se não as vivemos; se elas não têm efeito nenhum sobre as nossas vidas diárias?

Deste modo o Apóstolo abre esta parte da sua carta rogando aos santos de Tessalônica, e exortando-os, como representante do Senhor Jesus, para lembrarem como ele tinha os ensinado a "andar e agradar a Deus" e abundar "cada vez mais" (4:1).

Como já vimos, esta epístola não contém uma palavra de repreensão ou condenação dos crentes de Tessalônica, mas, sim, muita aprovação e louvor. Porém, ele sabia que fazia muito pouco tempo que eles tinham se convertido dos ídolos a Deus e antes daquela época tinham participado nos pecados vis associados com a idolatria pagã. Portanto, neste capítulo ele exorta-os a prestar atenção no andar deles como crentes em Cristo, especialmente em relação à pureza moral.

Primeiro, nos versículos 3-8 ele lida com a pureza de vida que deve caracterizar todos os crentes. Eles tinham sido chamados para a pureza da vida cristã e como resultado estavam muito mais felizes, mas ele sabia quais tentações ainda os cercava, e nem era preciso falar das tentações que tinham de dentro. Portanto ele começa:

"Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição" (4:3).

SANTIFICAÇÃO BÍBLICA

No Novo Testamento (1) a palavra grega para "santificação" é hagiazo e no Velho Testamento a palavra hebraica é qodesh. De acordo com a maioria das "autoridades" de obras de referência, qodesh e hagiazo simplesmente significam "colocar de lado" ou "separar". É verdade que este é o sentido orgânico da palavra, mas quando usada no cotidiano, o seu sentido é expandido consideravelmente. Em Gn.2:3; Êx.3:5; Mt.6:9 e II Co.11:2 – além de muitas outras passagens, esta palavra é traduzida "santificou", "santa", "santificado" e "preparado", mas em cada caso o sentido é: "separado como sagrado", "consagrado" e "dedicado". Portanto, Jerusalém é chamada a "cidade santa" (Mt.4:5), o "santuário" do tabernáculo, o "santo dos santos" (Hb.9:3,8); a Bíblia é chamada de as "Santas Escrituras" (Rm.1:2) e o Espírito de Deus de "o Espírito Santo" (Ef.4:30).

Como isto tocaria os corações dos crentes se reconhecessem que, tanto na nossa salvação como no nosso andar, tem sido o propósito de Deus, não meramente nos separar do mundo, mas nos separar como sendo sagrados para Ele. Não é uma imposição negativa de faça isto ou não faça aquilo, mas sim, um requisito positivo que fala do amor de Deus por nós mais do que o nosso amor para Ele. Esta verdade, para muitos, iluminaria de uma maneira totalmente diferente a doutrina bíblica de santificação.

É com isto em mente que o Apóstolo exorta os crentes em Tessalônica para se man- terem moralmente puros. Ele não diz: "Esta é a vontade de Deus, que vos abstenhais da prostituição", mas sim: "Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição". O nosso pensamento deve ser: "Como posso entristecer tanto Aquele que me amou o suficiente para morrer por mim e deseja-me para ser Seu filho?" Com os padrões morais caindo por toda a nossa volta, até mesmo entre os "reli- giosos", o crente deve tomar isto a sério. Aqui não temos meramente o "autocontrole vs. controle de natalidade", mas o exercício do autocontrole porque somos a Sua possessão sagrada.

"Que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra" (4:4).

Parece que a palavra "vaso" aqui pode referir-se ou ao próprio crente ao à sua esposa. A palavra no grego: skuos, é às vezes usada até dos "bens" contidos no vaso. Esta palavra é usada nas Escrituras para descrever "um vaso escolhido", "uns [vasos] para honra, outros, porém, para deshonra", "vasos da ira", "vasos de misericórdia", "vasos de ouro e de prata" e "todo vaso de marfim, e todo o vaso de madeira preciosíssima". Portanto, nossos corpos são recipientes, por assim dizer, ou daquilo que é bom ou daquilo que é mau, e cada crente deve aprender a possuir seu vaso como se fosse precioso a Deus, para dar-Lhe a devida honra. Em II Tm.2:21 o Apóstolo afirma:

"De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, (2) será vaso para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra."

Se, porém, "seu vaso", em 4:4, refere-se à sua esposa, a exortação tem força igual, porque crentes devem tratar suas esposas "em santificação e honra; não na paixão da concupiscência (isto é, com desejo), como os gentios, que não conhecem a Deus".

Entretanto, como cremos que as palavras "seu vaso" aqui provavelmente referem-se ao corpo de cada um de nós, torna-se importante lembrar que nós meramente habitamos estes corpos. Somos meramente inquilinos que devem possuir estes vasos em santificação e honra, porque um mau inquilino pode arruinar logo uma casa. Um bom inquilino, entretanto, cuidará dela para que enquanto naturalmente vai ficando velha, ainda estará em boas condições. Quantos já dissiparam suas energias e arruinaram seus corpos por causa do pecado, tornando-os quase que inúteis para o serviço de Deus! Para estes Paulo diz:

"Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?
Porque fostes comprados por bom preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus" (I Co.6:19-20).

Quanto a 4:6, a tradução da nossa Bíblia supre a palavra "algum", o que pode referir-se a "qualquer coisa". Mas o Textus Receptus [o manuscrito original do Novo Testamento no grego] contém o artigo definido, e de fato, parece no v.7 que o Apóstolo continua aqui com o mesmo assunto geral, isto é, que nenhum crente deve "enganar seu irmão em (neste) negócio (isto é, no assunto em discussão), porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos". (3) "Não adulterarás... Não cobiçarás a mulher do teu próximo..." (Êx.20:14,17).

Finalmente, o Apóstolo termina com palavras que falam por si:

"Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação.
Portanto, quem despreza isto não despreza ao homem, mas sim a Deus, que nos deu também o Seu Espírito Santo" (4:7-8).

Ao invés de desprezar, não meramente o homem, mas Deus, vamos andar "como é digno da vocação com que" fomos chamados e de fato possuir o nosso "vaso em santificação e honra" por Ele.


AMOR, QUIETUDE E HONESTIDADE

"Quanto, porém, à caridade fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros.
Porque também já assim o fazeis para com todos os irmãos que estão por toda a Macedônia. Exortamo-vos, porém, a que ainda nisto abundeis cada vez mais.
E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado;
Para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa alguma."
— Tessalonicenses 4:9-12

As palavras do Apóstolo no v.9 são confirmadas pela epístola como um todo. Eles de fato tinham sido "instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros", por isso Paulo não precisava escrever sobre este assunto. Eles até tinham demonstrado seu amor cristão para com todos os irmãos em toda a Macedônia. Entretanto, divisões surgem facilmente mesmo entre os crentes mais sinceros, por isso o Apóstolo elogia os tessalo- nicenses por sua atitude e "exortamo-vos... que... abundeis cada vez mais" (4:10).


Enquanto que, como dizemos, esta epístola não contém uma palavra de repreensão ou condenação, o Apóstolo ainda exorta-os:

"E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado" (4:11).

Talvez Timóteo tivesse relatado a Paulo uma tendência nascente por alguns de não quererem trabalhar e de fazer "coisas vãs" (veja II Ts.3:11-12). Pode ser que achavam que foram justificados por apenas esperar a volta do Senhor. De qualquer forma, o Apóstolo exorta-os a viverem quietos, a cuidarem de seus próprios negócios e que "comam o seu próprio pão" (II Ts.4:12). E tudo isso "para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa alguma" (4:12). Se eles não atenderem a sua exortação pode ser que logo não tenham as necessidades para a vida e estejam devendo dinheiro "para os que estão de fora" (4:12). Uma falta de integridade e autoconfiança deste tipo só pode desonrar a Deus e a mensagem que Ele entregou à nossa confiança.

Como as exortações do Apóstolo Paulo são saudáveis e práticas quanto à integridade, atividade e autoconfiança, e que tipo de respeito tal conduta proporcionará para aquele que quer ser usado por Deus!

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1) Usamos os termos Velho Testamento e Novo Testamento no sentido geralmente aceito, porque na realidade o Velho Testamento, ou Aliança, foi instituída no Monte Sinai e o Novo Testamento foi feito no Calvário.
2) Neste caso ele refere-se à separação daqueles que "perverteram a fé de alguns" por ensinamento falso, mas certamente aplicaria igualmente a qualquer coisa que desonra a Deus.
3) A fraudulência quase sempre entra nos casos de amor ilícito. Algum tempo atrás o escritor e sua esposa estavam num restaurante onde viram um casal de mãos dadas e agindo de um maneira carinhosa demais. Pouco depois o homem disse para a mulher: "O que seu marido diria se soubesse que está comigo?" Evidentemente o marido não sabia, mas Deus sabia, e Ele é o "vingador de todas estas coisas" (4:6).

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