"A BEM-AVENTURADA ESPERANÇA"
O ARREBATAMENTO DO CORPO
PARA ESTAR COM CRISTO
"Não quero, porém,
irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que
não vos entristeçais, como os demais, que não têm
esperança.
Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que
em Jesus dormem Deus os tornará a trazer com ele.
Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos
vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem.
Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido e com voz de
arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão
primeiro.
Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com
eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com
o Senhor.
Portanto, consolai-vos uns com aos outros com estas palavras."
— I Tessalonicenses 4:13-18
NÃO QUERO QUE SEJAIS IGNORANTES
Não é estranho que as próprias verdades referentes àquilo que o Apóstolo diz: "Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes" – são justamente as verdades em que os crentes são inclinados a serem mais ignorantes? A passagem que agora vamos considerar é um exemplo.
Já vimos em I Ts.3:10 que o Apóstolo estava "orando abundantemente dia e noite" para que ele pudesse ver estes irmãos outra vez e suprir "o que falta à vossa fé". Um destes assuntos era a visão futura daqueles amados dos tessalonicenses que tinham dormido em Cristo. Eles agora perderiam a glória e regozijo do Arrebatamento? De maneira alguma, diz o Apóstolo, porque quando nosso Senhor vier para nós virá para os membros do Corpo que estão dormindo e também para "os que ficarmos vivos".
Pois... nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque... os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares... (4:15-17).
AQUELES "QUE EM JESUS DORMEM"
Uma interpretação mal feita desta passagem conduziu à doutrina errônea de "dormência da alma". Mas nunca lemos nas Escrituras sobre a dormência da alma: em vez disto é o corpo que se diz que está dormindo (Dn.12:2; Mt.27:52; At.13:26).
A morte não é extinção ou suspensão da existência pessoal, nem tampouco da existência consciente, porque a possessão de um corpo não é essencial à consciência. Por exemplo, os nossos olhos físicos não vêem de verdade. O momento após a morte, embora ainda em perfeitas condições, obviamente não vêem nada. Os nossos olhos são apenas as lentes através das quais o homem interior agora vê as coisas desta vida. Mas com os olhos fechados podemos ver as pessoas, casas, montanhas, rios, em nossos sonhos e também em nossas imaginações. Portanto, no estado intermediário os homens podem ver, inteiramente sem os olhos físicos. Para os judeus incrédulos, que insistiam "morreu Abraão", nosso Senhor respondeu: "Abraão... exultou por ver meu dia (a vinda Dele para a terra)... e alegrou-se" (Jo.8:56) e no hades o Homem Rico "ergueu seus olhos... e viu ao longe Abraão, e Lázaro..." (Lc.16:23). Isto, logicamente, é tudo à parte da compreensão intelectual ou espiritual.
Em II Co.5:6,8 o Apóstolo afirma que "enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor", mas acrescenta: "Mas... desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor". Observe, ele afirma isto de duas maneiras para ênfase e clareza. Não há nada sobre um estado inconsciente entre a morte e a ressurreição, de fato esta passagem torna claro que enquanto o crente está ausente do corpo ele está com o Senhor, e ambos II Co.5:8 e Fp.1:21-23 indicam que, para nós, esta última condição é para ser desejada.
Quando o Apóstolo recorda em II Co.12:1-3 o seu apedrejamento em Listra, ele declara que não sabe se estava "no corpo" ou "fora do corpo", mas ele sabe com certeza que "foi arrebatado até o terceiro céu" e foi dada uma revelação, a glória da qual ameaçou exaltá-lo (12:2-7). Se a alma "dorme", ou se torna inconsciente da morte, obviamente o Apóstolo teria sabido que naquela hora ele não estava "fora do corpo", mas "no corpo".
Portanto, em I Ts.4:13-14 Paulo não fala de Cristo trazendo almas consigo do céu, mas em vez disso, de Deus trazer os corpos dos santos "que dormem" de volta da morte (veja Hb.13:20 – "tornou a trazer dos mortos"). Leia cuidadosamente a linguagem do v.14:
"Porque, SE CREMOS QUE JESUS MORREU E RESSUSCITOU (1), ASSIM TAMBÉM aos que em Jesus dormem Deus os tornará a trazer com ele." (2)
A frase "se cremos" é também usada em referência à ressurreição de Cristo em Rm.4:23-24, mas lá está associada com a justiça imputada à Abraão pela fé; esta justiça também será imputada a nós se crermos "naquele que dos mortos ressuscitou a Jesus Cristo nosso Senhor". Entretanto, aqui em I Ts.4:14, é usada como base para nosso conforto quando perdemos nossos amados em Cristo. "Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou" não será difícil crer que "assim também aos que em Jesus dormem Deus os tornará a trazer com ele [isto é, da morte]".
UMA REVELAÇÃO ESPECIAL PARA PAULO
"Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor..." (4:15).
É de suma importância
entender que a verdade do Arrebatamento era uma revelação especial
dada a Paulo. Aqui ele a proclama "pela palavra do Senhor", isto é,
a ele, enquanto que em I Co.15:51, escrevendo sobre o mesmo assunto, ele diz:
"Eis aqui vos digo um mistério", (isto é, "Revelo
a vós um mistério.")
Durante os primeiros 40 anos do século 20, houve um revivamento na Igreja
genuíno, mandado do céu, quando a grande verdade da vinda do Senhor
para buscar os Seus foi recuperada por homens de Deus com Darby, Scofield, Gaebelein,
Ironside, Gray, Gregg, Haldeman, Ottman, Newell e outros. Naquela época
"a abençoada esperança" ardia radiantemente nos corações
das multidões de crentes que criam na Bíblia.
Embora estes homens de Deus tivessem sido usados para chamar a atenção à verdade do Arrebatamento havia uma falha em seu argumento básico. Ainda não viam claramente que a vinda de Cristo para os Seus no fim desta dispensação fazia parte do grande "mistério" revelado ao Apóstolo Paulo e por ele, e como tal, era exclusivamente a esperança dos membros do Corpo de Cristo, a Igreja desta dispensação. Já vimos na nossa discussão de I Ts.1:10 que alguns usaram passagens como Mt.24:40-42; Jo.14:3 e At.1:11 quando pregaram sobre o Arrebatamento, e desta forma involuntariamente ajudaram a criar a teoria de "pós-tribulação", o ensinamento que Cristo não voltará para buscar os Seus senão depois da Grande Tribulação, e portanto, os membros do Corpo de Cristo, terão que suportar horrores do tipo que o mundo nunca viu e nunca verá novamente (Dn.12:1; Mt.24:21). As terríveis armas de destruição com que as nações se ameaçam hoje desempenham um grande papel em convencer crentes amedrontados de que a Grande Tribulação está próxima, mas as Escrituras ensinam que seremos arrebatados para estar com Cristo antes que a dispensação da graça de Deus dê lugar ao dia da Sua ira.
O erro mencionado acima teria sido evitado se tivessem prestado rigorosa atenção nas afirmações de Paulo quanto a esta revelação. Este "mistério" foi, sem dúvida, um daqueles "mistérios de Deus" do qual ele foi feito dispenseiro (I Co.4:1), uma parte integral daquele grande corpo de verdade que ele chama de "o mistério", isto é, a mensagem e programa de Deus para a Igreja desta atual dispensação, o Corpo de Cristo (Rm.16:25; I Co.2:7; Ef.3:3,9; Cl.1:25-26, 2:2; I Tm.3:9).
O ARREBATAMENTO ACONTECERÁ
SUBITAMENTE
"Num momento, num abrir e fechar de olhos..." (I Co.15:52).
Muitos incrédulos zombam da idéia que subitamente, um dia, todos os crentes verdadeiros em Cristo serão arrebatados deste mundo para estarem com Ele. Mas eles também ridicularizam a idéia que Ele voltará à esta terra para julgar e reinar.
Mas podemos agüentar o desprezo deles. Em primeiro lugar, porque cremos em Deus. "Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" (I Co.1:20). Em segundo lugar, porque o evento se encaixa perfeitamente com o resto do plano revelado de Deus.
Gostaríamos de perguntar ao incrédulo: Você acha que Deus permitirá que o homem continue para sempre rejeitando Seu amado Filho – que veio para este mundo para pagar a penalidade do pecado do homem? Você acha que o Deus que criou e controla este vasto universo e que mostra um interesse tão especial pelo Planeta Terra e por aqueles que aqui vivem, não tem nenhum plano melhor para eles do que permitir que este mundo continue interminavelmente um cenário de hospitais e prisões, de exércitos em marcha, guerras, derramamento de sangue, ganância, intriga, suspeita, ódio, sofrimento, doença e morte? Isto tudo vai continuar sem um fim? Seria um absurdo acreditar nisto! A maior parte do plano revelado de Deus já foi executado e não há nenhuma razão válida para questionar o que ainda virá enquanto Ele retira os Seus de cena e encerra a dispensação da graça Seus de cena e encerra a dispensação da graça
Os efeitos da retirada súbita da Igreja com os verdadeiros crentes do mundo será, logicamente, de grande escala. Entre aqueles arrebatados serão motoristas de carros e caminhões, maquinistas de trem, pilotos de avião, homens em posições chaves nos governos, indústrias, medicina, educação e na sociedade em geral, para não dizer nada dos milhões de crentes humildes nos seus empregos diários ou em casa com suas famílias. Quem pode calcular o caos em que isso resultará? Sem dúvida este evento terá um impacto poderoso sobre cada faceta da vida na terra.
Porém, a Palavra de Deus não diz quase nada sobre tudo isto. A grande lição que aprendemos enquanto estudamos as Escrituras sobre este assunto é que "a dispensação da graça de Deus" terá chegado a um fim abrupto enquanto Deus chama de volta os Seus embaixadores de paz e se prepara para declarar guerra no mundo que rejeita a Cristo (Sl.2:1-9, 110:1).
A Bíblia, obviamente, ainda continuará na terra com milhões de cópias e em breve novamente terá um remanescente de crentes, crentes sofredores, mas evidentemente estes não terão origem dentre aqueles que já ouviram a mensagem de "graça e paz" e a rejeitaram, porque agora o Deus longânimo e sofredor terá cedido à Sua ira contra a incredulidade e pecado. As Escrituras são claras neste ponto:
"E então será
revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua
boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda;
A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com
todo poder, e sinais e prodígios de mentira,
E com todo o engano da justiça para os que perecem, PORQUE NÃO
RECEBERAM O AMOR DA VERDADE PARA SE SALVAREM.
E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, (3) para
que creiam a mentira;
Para que sejam julgados todos os que não crêem a verdade, antes
tiveram prazer na iniqüidade"
(I Ts.2:9-12).
E isto é apenas o começo da manifestação de Sua ira sobre aqueles que não aceitam a Sua graça, porque alguns anos mais tarde, quando Ele de fato vem para julgar e pelejar "com justiça", Seus olhos "eram como chama de fogo" quando Ele volta do Calvário, "vestido de uma veste salpicada de sangue" para pisar "o lagar do vinho e da ira do Deus Todo-poderoso" (Ap.19:11-15).
Como é urgente, então,
para os incrédulos atenderem as palavras do Apóstolo Paulo em
II Co.6:1:2:
"E nós, cooperando também com ele, vos exortamos
a que não recebais a graça de Deus em vão;
...Ouvi-te em tempo aceitável e socorri-te no dia da salvação;
eis aqui AGORA o dia da salvação."
OS DETALHES
Os detalhes do Arrebatamento são um prazer de se estudar. A maior parte deles aparece aqui em I Ts.4:16-18, mas outros encontram-se em I Co.15:51-57 e outras passagens das epístolas de Paulo. Vamos considerar cada uma cuidadosamente.
O PRÓPRIO SENHOR
"Porque o mesmo Senhor descerá do céu..." (I Ts.4:16).
Esta é a primeira e mais significante razão pela qual o Apóstolo aponta o Arrebatamento como sendo "a bem-aventurada esperança" (Tt.2:13). A terminologia sugere a Sua grandeza e disposição graciosa.
Conta-se a história do humilde soldado nortista na guerra civil americana que estava deitado numa barraca do hospital recuperando-se vagarosamente de um grave ferimento. Um dia adormeceu e acordou algum tempo depois por um afago suave em sua testa. Quando ele abriu os olhos deparou com o Presidente Lincoln, que conferia palavras de conforto e encorajamento. Assim que o Lincoln retirou-se, o rapaz ficou sentado e escreveu uma carta para sua mãe. "Imagine", ele escreveu, "que o Presidente dos Estados Unidos pararia e falaria comigo!"
Esta ilustração, é, logicamente, fraca, porque não existe anedota humana que pudesse descrever adequadamente a benevolência de nosso Senhor, exaltado "acima de todo o principado, e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro" (Ef.1:21), em vir pessoalmente para receber-nos para si para todo o sempre! É verdade que seremos conduzidos à Sua presença pelas hostes angelicais, mas Ele "descerá do céu" para encontrar-nos.
ARREBATADOS
Não é a nossa interpretação das Escrituras, mas um simples fato que somente nas epístolas de Paulo lemos sobre a vinda do Senhor nos ares para arrebatar os membros de Seu Corpo para estarem com Ele.
Muitos acham que João 14:3 refere-se ao Arrebatamento, uma vez que João aparentemente foi escrito depois das epístolas de Paulo e ele poderia ter aprendido estas coisas de Paulo. Mas João, no capítulo 14, meramente registra o que nosso Senhor disse para Seus discípulos enquanto ainda estava na terra e isto concorda, e precisa concordar, com o que ele tinha contado a estes mesmos discípulos o tempo todo sobre a Sua volta para julgar o mundo e reinar como Rei.
João 14:2-3 ainda é interpretado por muitos para significar que de alguma maneira o Senhor ascendido agora está preparando mansões nos céus para Seu povo habitar (4) e quando estas mansões ficarem prontas Ele voltará para levá-los ao céu para as mansões preparadas para eles. Milhares de Fundamentalistas Pré-milenar crêem nisto.
Mas nosso Senhor não disse nada aos Seus discípulos sobre a atual dispensação da graça, ou do Arrebatamento da Igreja desta época. Em vez disso, Ele os preparou para a Tribulação e Sua volta à terra para reinar com eles.
É verdade que Ele disse para eles ajuntarem "tesouros no céu" (Mt.6:20), Ele os exortou a confiar no "vosso Pai, que está nos céus" (Mt.7:11, etc.), Ele prometeu enviar o Espírito do céu (Jo.1:33), Ele subiu aos céus para "tomar para si um reino" (Lc.19:12) e também para eles, mas Ele não fez promessa alguma de levá-los para lá.
João 14:3 não diz nada sobre algum "arrebatamento" de Seus discípulos e Ele levando-os ao céu. Ele simplesmente diz: "Virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também".
Desta maneira, quando nosso Senhor retornar para a terra em glória Ele não esquecerá Sua promessa aos doze. Tendo voltado como Ele disse, os receberá a Ele na ressurreição para que eles possam reinar com Ele na terra (Mt.19:28; Lc.22:28-30). Então será cumprida a declaração angelical de Atos 1:11 –
"Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir."
Nada é escrito aqui também, sobre os discípulos sendo "arrebatados" para encontrar o Senhor nos ares. Em vez disso, tendo sido levados eles para o céu, nosso Senhor haverá "de vir assim como para o céu o vistes ir", isto é, para o lugar de onde Ele os tinha deixado. Assim lemos em Zacarias que Ele voltará ao mesmo lugar de onde partiu:
"E naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras" (Zc.14:4; At.1:2).
A "abençoada esperança" do Arrebatamento, então, é a esperança particular do Corpo de Cristo, a Igreja da atual dispensação.
JUNTOS
"...seremos arrebatados juntamente..." (4:17).
Muitos crentes sinceros, que ansiosamente esperam pelo cumprimento da "abençoada esperança", nunca perceberam que esta será a primeira vez que todos os membros do Corpo de Cristo estarão juntos.
Agora separados por distância geográfica e pela morte, e fragmentados por divisões teológicas e outras diferenças, é difícil de imaginar que algum dia feliz estaremos gloriosa e eternamente unidos, enquanto somos "arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor" (4:17).
Então não haverá mais separação, nem mesmo por distância física! Já ouvimos pessoas crentes expressarem o seu desejo de estarem "bem perto do próprio Senhor, ou "quero sentar ao lado de Paulo" ou alguma coisa parecida, naquele dia, mas se isto fosse necessário para a comunhão lá, estando "com Cristo" não haveria uma melhora das condições da terra quando se fala de ficar juntos.
Agora estamos limitados de muitas maneiras. Na nossa condição finita atual, nossos sentidos logo ficam embaraçados e confusos. Ficamos observando a vista dum morro e nossos olhos podem dar conta de apenas uma pequena parte do que estamos vendo, nossos ouvidos podem ouvir apenas alguns sons, nossas narinas podem sentir a fragrância de apenas algumas flores e nossas mentes podem pensar somente alguns pensamentos. Mas estas limitações de nossas capacidades desaparecerão e, participando da onisciência, nós gozaremos de plena e íntima comunhão com todos, da mesma maneira que nosso Senhor agora pode ter comunhão individualmente, ao mesmo tempo.
AS NUVENS
"Seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens"! (4:17)
O autor recorda bem quando era
criança e de como não gostava de qualquer dia nublado. "Este
pode ser o dia", pensava, "porque Ap.1:7 não diz 'Eis que vem
com as nuvens'?"
Ah, mas as nuvens nas quais o nosso Senhor retornará à terra e
para dentro das quais seremos arrebatados quando Ele vier para nós, não
são nuvens de chuva! Qualquer multidão ou hoste na Bíblia
é referido como uma "nuvem". Em Hb.12:1, os heróis da
fé listados no Capítulo 11 são chamados de "tão
grande nuvem de testemunhas". Quando o Senhor conduziu Israel através
do deserto, a Sua presença foi velada no que parecia ser um pilar de
nuvem de dia e um pilar de fogo de noite. Isto era a Nuvem de Shekinah, a hoste
de Seus anjos de acompanhamento.
Na Sua encarnação "a glória do Senhor" cercou os pastores e havia junto com o anjo anunciante "uma multidão dos exércitos celestiais" (Lc.2:9,13). Na Sua transfiguração "uma nuvem luminosa os cobriu" (Mt.17:5). Na Sua ascensão "uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos" (At.1:9). Na Sua vinda para nós "seremos arrebatados... nas nuvens" para encontrá-Lo (I Ts.4:17). E finalmente, na Sua volta para a terra Ele virá nas "nuvens do céu" (Mt.26:64). Certamente as "nuvens" aqui não são nuvens de chuva; são "uma multidão dos exércitos celestiais" (Lc.2:13), os acompanhantes do "Senhor dos exércitos" (Sl.84:8, etc.)
Portanto, os anjos serão nossas escoltas enquanto somos "arrebatados" para estarmos "sempre com o Senhor".
O ALARIDO, O ARCANJO E A TROMBETA
"...com alarido e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus" (4:16).
Em ligação com a vinda de nosso Senhor para nós um anjo em particular é mencionado: Miguel, o "arcanjo" (I Ts.4:16).
Existem alguns que asseguram que enquanto Israel, o povo de Deus na terra, experimentou o rimentou o ministério de anjos, isto não é verdade para os membros do Corpo de Cristo. E Miguel, especialmente, dizem, é designado como o anjo de Israel em Dn.12:1, onde Gabriel chama-o de "o grande príncipe, que se levanta pelos filhos de teu povo".
Mas há uma falha neste argumento. É verdade que Miguel era o anjo de Israel por um tempo, mas certamente ele não era o anjo de Israel durante mais de dois mil anos antes que houvesse uma nação chamada Israel. Tampouco ele é o anjo de Israel hoje, enquanto Israel é Lo-ammi: não do povo de Deus.
Seria mais correto chamar Miguel de o Comandante-Chefe dos exércitos do Senhor. Ele é o soldado de Deus, da mesma forma que Gabriel é Seu embaixador. Ele é visto como um lutador, e Gabriel é Seu mensageiro (Veja Dn.10:12-13, 20-21; Ap. 12:7-9). É significante que junto com a referência do arcanjo em I Ts.4, também temos o "alarido" e a "trombeta", (5) ambos associados com "o preparo para a guerra" nas Escrituras. De fato, o termo a "voz de arcanjo" sem dúvida refere-se à chamada de Miguel para nós ficarmos de prontidão.
Mas porque o preparo militar,
por assim dizer, em ligação com um evento tão abençoado
quanto nossa ida para estarmos com Cristo?
Esta pergunta não é difícil de se responder quando reconhecemos
que na vinda de nosso Senhor para nós seremos conduzidos para a esfera
onde Satanás e suas hostes se intrometeram para nos prejudicar, porque
Satanás é conhecido como "o príncipe das potestades
do ar" (Ef.2:2), de onde, entre a sua região e nossa (Ef.6:12),
ele se empenha em lutar conosco.
Conseqüentemente, o "alarido", a "voz do arcanjo" e "a trombeta de Deus" são todos apropriados quando o Senhor vier com as multidões de seus santos anjos para receber-nos a Si.
OS MORTOS RESSUSCITADOS
E
OS VIVOS TRANSFORMADOS
"...e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares..." (4:16-17).
Com respeito àqueles membros do Corpo de Cristo que já estarão mortos antes de Sua vinda, o Apóstolo diz que eles serão ressuscitados "em incorrupção... em glória... com vigor... [em] corpo espiritual", trazendo "a imagem do celestial" (I Co.15:42-44,49), e aqueles que protestam que a ressurreição dos mortos em si é uma impossibilidade, ele silencia-os com a resposta devastadora:
"Insensato! O que tu semeias, não é vivificado, se primeiro não morrer" (I Co.15:36).
Em outras palavras: Olhe em volta e veja como as suas objeções são respondidas pelo fato da ressurreição dos mortos, acontecendo a seu redor. Isto foi confirmado por nosso Senhor quando ele disse:
"Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto" (Jo.12:24).
Então, quando os crentes mortos tiveram sido ressuscitados em corpos gloriosos, "depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles" (4:17). Mas aqui outras passagens providenciam informações gloriosas que I Ts.4 não contém.
Em I Co.15:51 o Apóstolo declara:
"Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados."
E a glória desta "transformação"
é indicada nos seguintes versículos, onde é escrito que:
"...isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade,
e que isto que é mortal se revista da imortalidade" (15:53).
"Mas a nossa cidade (6) está
nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.
Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo
glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as
coisas" (Fp.3:20-21).
Só o fato de que seremos "arrebatados" corporalmente desta terra implica que alguma grande mudança física ocorrerá quando nosso Senhor vier nos buscar. A lei da gravidade será suspensa? Não, será nós que seremos transformados – transformados gloriosamente para sermos "conforme" o nosso Senhor ressurreto e glorificado.
Mas esta mudança abrangerá mais do que nossos corpos. De fato, uma mudança será posta em efeito, a qual crentes sinceros esperam suas vidas inteiras com apenas um pequeno grau de sucesso. Referimo-nos à mudança moral e espiritual sobre a qual Paulo tem tanto a dizer em suas epístolas.
Ambos Tiago e Paulo compararam a Palavra a um espelho, mas Tiago fala da Lei, enquanto que Paulo proclama a graça, e a Lei e graça completam funções contrárias na vida do crente. Tiago diz:
"Porque se alguém
é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao
varão que contempla ao espelho o seu rosto natural;
Porque se contempla a si mesmo, e foi-se, e logo se esqueceu de que tal era"
(Tg.1:23-24).
Como isto é típico! Quando olhamos no Espelho divino para nos contemplar geralmente não gostamos do que vemos, porque o Espelho "conta a realidade". Mas o que geralmente fazemos a respeito? Muito pouco ou nada. Em vez disso, somos iguais ao varão de Tiago: "foi-se, e logo se esqueceu de que tal era" (ou de que tipo de pessoa era). Isto é assim porque a Lei dá muito pouca motivação e nenhum poder ao homem natural para colocar as coisas em ordem em sua vida.
Paulo também encoraja-nos para olhar na Palavra, o Espelho divino, mas pede que o "inclinamos", por assim dizer, para observar, não a nós mesmos, mas a Cristo – e compreender o resultado:
"Mas todos nós com cara descoberta, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor" (II Co.3:18).
Ah, enquanto observamos no Espelho divino "a glória do Senhor", ela produz em nós uma transformação. Suponhamos que você está se olhando no espelho. Ele mostrará você do jeito que você é, com todas as rugas e defeitos físicos. Mas o espelho não produzirá nenhum efeito em você. Mas agora vamos supor que você inclina um pouco o espelho para pegar melhor a luz. Ah, agora a luz é refletida sobre seu rosto e produz uma mudança em você, iluminando suas feições. Assim, diz Paulo, enquanto observamos "a glória do Senhor" na Palavra, somos gradualmente "transformados de glória em glória na mesma imagem".
Mudança gradual, dizemos, porque enquanto esta mudança na semelhança de Cristo é – ou deve ser – o desejo profundo de cada coração crente, como a transformação demora a acontecer! De fato, a palavra traduzida "transformados" aqui é a palavra grega metamorphoomai, de onde vem a nossa palavra metamorfose, ou mudança gradual.
Mas um dia, somos assegurados, Deus entrará em cena e fará algo a respeito disso. Porque aqui em I Co.15:51-52, Ele usa uma palavra diferente (no grego: allasso) e uma maneira diferente de escrever, enfatizando não tanto a transformação mas o fato de que Ele a realizará, e neste caso a mudança será instantânea e completa.
"...Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados,
Num momento, num abrir e fechar de olhos...".
Observe bem, esta passagem refere-se a todos os membros do Corpo de Cristo, independente se estão mortos ou vivos, porque mesmo aqueles que já deixaram "este corpo [isto é, seus corpos físicos] para habitar com o Senhor" (II Co.5:8) ainda esperam "a redenção do nosso corpo" (Rm.8:23), o corpo que foi por tanto tempo o veículo do pecado. Mas quando nosso Senhor vier para nós tudo será mudado, transformado na semelhança do Senhor da glória!
Que encorajamento isto é! Depois de todas as nossas orações e lutas e lágrimas; depois de recriminar (acusar) a nós mesmos por não crescer mais rapidamente; depois de tudo isto – e por anos a fio – virá um momento abençoado quando Deus assumirá o controle de tudo súbita e completamente, quando por Sua maravilhosa graça a mudança desejada acontecerá.
________________
1) Não foi o Seu corpo que "morreu e ressuscitou"?
2) Da mesma forma que Ele "tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus
Cristo" (Hb.13:20).
3) Não diretamente, mas entregando-os aos desejos de seus corações
maus.
4) Veja o livro do autor O Duplo Propósito de Deus, Pp.49-54 para mais
informações sobre "mansões".
5) Uma vez que esta trombeta é chamada de "a última trombeta"
em I Co.15:52, alguns supõem que ambas as passagens referem-se à
sétima trombeta da Grande Tribulação (Ap.11:15). Mas isto
seria antecipar a revelação, porque de que maneira o Apóstolo
poderia referir-se às sete trombetas futuras quando ainda não
era revelado que haveria sete, ou mesmo duas ou três? Além disso,
ele refere-se às sete trombetas da Tribulação com igual
importância, enquanto que aquela em I Ts.4, é chamada de "a
trombeta de Deus". Deste modo, refere-se à trombeta que soará
no fim, isto é, por nós.
6) Ou "cidadania" (grego: polituma).