O DR. X, OS 12 APÓSTOLOS, E PAULO

OS "ERROS" DE PEDRO E DE PAULO

No princípio dos anos 60 um dos principais comentadores da Bíblia opôs-se vigorosamente à verdade do apostolado distinto de Paulo através de uma série de mensagens radiodifundidas e de livretos impressos. Contudo, os argumentos dele sobre o assunto contradiziam tantas passagens das Escrituras que elas despertaram grande discussão e controvérsia.

As mensagens do bom Doutor sobre "Os Erros de Pedro e de Paulo" trouxeram à mente deste escritor algo que H. L. Hastings, aquele grande defensor da fé, disse há mais de um século. Hastings disse: "Você terá de pagar meio dólar por um ingresso para ouvir a palestra de Bob Ingersoll sobre os erros de Moisés. Valeria a pena pagar quinhentos dólares para ouvir a palestra de Moisés sobre os erros de Bob Ingersoll!"

Não queremos colocar o Doutor na mesma categoria de Bob Ingersoll. De modo algum, visto este ensinador da Palavra ter sido um fundamentalista militante, só que estava confuso – também militantemente – quanto às posições divinamente designadas dos doze e de Paulo. Propomo-nos provar isto pelas Escrituras, pois apesar do doutor estar agora com Cristo, os escritos dele ainda estão conosco e responderemos a estes exatamente como o fizemos em 1964, usando agora o verbo no passado em vez do presente. Para também manter o elemento pessoal no segundo plano referir-nos-emos a ele simplesmente como "o Dr. X".

Uma vez que o Dr. X apresentou a maior parte ou mesmo a totalidade dos argumentos usados por aqueles que negam que o apostolado e a mensagem de Paulo sejam separados e distintos do apostolado e mensagem dos doze, este procedimento habilitar-nos-á a apresentar uma resposta mais completa.

O Dr. X cria que aos olhos de Deus Paulo era um dos doze apóstolos e que ele trabalhou sob a mesma comissão que eles. Na sua determinação em manter esta posição ele desacreditou imensamente, tanto Pedro como Paulo, acusando-os de falhas graves, quando de fato a falha era dele.

O DR. X E O APÓSTOLO PAULO

Na época referida acima, o Dr. X publicou algumas das suas mensagens radiodifundidas num livreto intitulado, The Blunders of Paul, acusando Paulo de "um terrível erro", que conduziu as suas jornadas "missionárias" a "um fim prematuro" (Pg.1,2). Acusando o apóstolo de rebelião voluntária contra Deus por ter feito a sua última jornada para Jerusalém, o Dr. X escreveu: "Paulo pagou caro pela sua desobediência" (Pg.5). Mas, provavelmente, a sua acusação mais imprudente contra Paulo encontra-se no seu comentário sobre At.21:13:

Como sabemos, os versículos precedentes registram a profecia de Ágabo de que Paulo seria preso em Jerusalém e entregue aos gentios. Ao ouvirem esta profecia os amigos dele rogaram-lhe com lágrimas que não se aventurasse indo a Jerusalém, e o registro continua dizendo:

"Mas Paulo respondeu: Que fazeis vós, chorando e magoando-me o coração? Porque eu estou pronto não só a ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus" (At.21:13).

Esta resposta não revela evidências tocantes tanto da ternura como da disponibilidade do apóstolo em sofrer por Cristo? Os rogos cheios de lágrimas dos seus irmãos partiram-lhe o coração, no entanto, ele sentia-se "ligado... pelo espírito" (At.20:22) de ir a Jerusalém para dar testemunho de Cristo.

Contudo vejamos como o Dr. X interpretou esta passagem. Ele disse:

"O coração terno do Apóstolo Paulo, que se podia comover e chorar pelos seus convertidos, agora é duro como um tijolo e insensível ao choro tenro dos seus amigos muito queridos" (Pg.16).

Nós não negamos que Paulo era humano e podia cometer erros, como certamente o fez. Ele era o primeiro a reconhecer isso. Mas qual de nós tem revelado metade da ternura dele ou metade da sua fidelidade no seu ministério para o Senhor? Pelo contrário, pensamos que foi o Dr. X que endureceu o seu coração e fechou os olhos para a grande revelação paulina, com o seu "um só corpo" e "um só batismo".

Mas na sua oposição firme à esta grande verdade da Escritura, o Dr. X desacreditou tanto a Paulo como os doze apóstolos.

O DR. X E OS DOZE APÓSTOLOS

No Livreto N.º 1 dos seus Estudos em Atos, o Dr. X disse coisas desagradáveis de Pedro e dos onze a respeito da nomeação de Matias para ocupar o lugar de Judas entre os doze. Passamos a citar:

Página 12: "...o impetuoso e impaciente Pedro teve outra idéia insensata... Ele sugere que eles prestem um pouco de assistência ao Senhor na nomeação de um décimo segundo apóstolo para o lugar de Judas".

Página 13: "Pedro estava completamente fora de ordem".

Página 14: "...eles foram compelidos a recorrer ao método duvidoso da 'sorte' " (Nas mensagens radiodifundidas anteriores ele tinha descrito os apóstolos como "lançando dados" para escolher o sucessor de Judas, como se estivessem jogando por dinheiro o resultado). E ele continuou, "Mas foi tudo em vão. Aquela não tinha sido a escolha de Deus, mas do homem".

Página 16: "...este grande erro de Pedro ao inventar a nomeação de Matias".

Páginas 16-17: "...O erro de Pedro" causou a Paulo "muito sofrimento, mais tarde".

Página 15: "Os onze... não quiseram admitir o seu erro".

Confirmando a sua controvérsia o Dr. X fez uma declaração muito estranha: A respeito de At.1:26, ele declarou que Matias "foi numerado [contado] com os onze, mas NÃO COM OS DOZE" (Pg.15, ênfase sua). Porém, ele inseriu a palavra "contado" para dar a impressão que Matias foi contado como um dos onze, não dos doze! Que perversão duma passagem tão clara das Escrituras! Obviamente, é claro como o dia que os onze estavam nomeando um décimo segundo apóstolo, não um décimo primeiro. Eles estavam restaurando o número para doze. Em Pentecostes, Pedro levantou-se "com [mais] os onze" e como aprendemos no primário, um homem mais onze homens soma doze homens. At.1:26 declara que Matias foi "contado com [mais] os onze".

À luz da Palavra de Deus o caso do Dr. X contra Pedro e os onze é uma obra magistral do pensamento confuso e da recusa cega em aceitar o que Deus tem dito tão claramente sobre o assunto. Sejamos Bereanos e abramos os olhos.

OS FATOS NO CASO

A escolha de Deus para o lugar de Judas, disse o Dr. X, foi Paulo e os apóstolos e os discípulos atuaram na carne ao designarem Matias. Mas o registro das Escrituras indica claramente que:

1) Os onze apóstolos e os discípulos "perseveravam unanimemente em oração e súplicas" desde a ascensão de Cristo (At.1:14).

2) Foi "naqueles dias" de oração contínua fervorosa, que Pedro se levantou dirigindo-se não apenas aos outros apóstolos, mas a "quase cento e vinte" discípulos (At.1:15).

3) Pedro lembrou os seus ouvintes que "o Espírito Santo predisse pela boca de Davi", a respeito de Judas: "Fique deserta a sua habitação... Tome outro o seu bispado" (At.1:16,20; cf. Sl.109:8).

4) O nosso Senhor tinha prometido que como corporação de doze homens os apóstolos, no Seu reino, ocupariam doze tronos (Mt.19:28).

5) O estabelecimento do reino seria oferecido em breve e tinha que haver doze homens prontos para ocuparem os doze tronos juntamente com Cristo (At.3:19-21).

6) Tinha sido dada autoridade oficial aos apóstolos para atuarem na ausência de Cristo (Mt.18:18-19).

7) Os candidatos para o lugar de Judas tinham que ser homens que tivessem acompanhado Cristo e os doze "todo o tempo" em que Cristo ministrou na terra, desde o primeiro dia do Seu ministério até ao último (At.1:21-22). Isto baseava-se nas palavras da promessa de nosso Senhor: "vós, que me seguistes" (Mt.19:28) e "vós sois os que tendes permanecido comigo" (Lc.22:28-29). E não será extremamente duvidoso que houvesse mais do que dois assim qualificados?

8) E até os dois assim qualificados foram levados ao Senhor em oração (At.1:24).

9) A escolha final foi deixada totalmente ao Senhor através do lançamento de sortes (At.1:24-25).

10) "Caiu a sorte sobre Matias. E por voto comum foi contado com os onze apóstolos... E todos foram cheios do Espírito Santo" (At.1:26; 2:4).

A VERDADE PERVERTIDA

O nosso irmão condenou os onze por estes terem nomeado Matias tendo por base as instruções do Senhor em Atos 1:4, para que "esperassem a promessa do Pai", isto é, a vinda do Espírito Santo. Contudo, a interpretação que ele fez deste mandamento está expressa nas seguintes declarações, também do livreto Nº. 1 dos seus Studies in Acts (Toda ênfase é do autor):

"Os apóstolos deveriam 'permanecer' em Jerusalém e NADA FAZER mas ESPERAR a promessa do Espírito Santo" (Pg.5).
"...eles deviam ESPERAR. Eles não se deviam mover" (Pg.5).
"...os discípulos deveriam ESPERAR pelo Espírito Santo afim de Ele lhes dar instruções para levarem a cabo o programa para a Igreja" (Pg.12).
"Jesus disse para ESPERAREM afim do Espírito Santo os guiar" (Pg.17).

Contudo, à luz do registro das Escrituras, o Dr. X estava muito longe da verdade aqui. O nosso Senhor não disse aos discípulos para "não faça nada a não ser esperar", doutro modo até mesmo a sua reunião para orarem teria constituído desobediência. Ele também não lhes disse para esperarem "pelo Espírito Santo lhes dar instruções" e muito menos que "lhes daria instruções para executarem o programa para a Igreja". Tudo isto foi adicionado ao Registro sagrado pelo nosso irmão. Para examinarmos com exatidão o que esta passagem diz, vamos para At.1:4.

"E, estando com eles, [Ele] determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai..."

Isto concorda com o registro em Lc.24:49, onde o nosso Senhor disse:

"...ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder".

Isto é suficientemente claro. Os onze deveriam esperar pela vinda do Espírito Santo antes de saírem de Jerusalém. Isto é bastante diferente de esperar e fazer nada, um pensamento que o Dr. X introduziu nesta passagem na sua determinação de tornar Paulo um dos doze e de desprezar o caráter único do seu apostolado.

AS ESCRITURAS FORAM OBEDECIDAS

Chamar à nomeação do sucessor de Judas "outra idéia insensata" de Pedro, parece pior do que um disparate, a este escritor, especialmente à luz do fato do próprio Dr. X concordar que as Escrituras tinham declarado previamente que um outro deveria tomar o "bispado" de Judas (At.1:20; cf. Sl.109:8).

Mas acusar o "impetuoso e impaciente Pedro" com a "invenção a nomeação de Matias", ainda é pior, pois significa acrescentar a difamação ao insulto.

Ao longo de todo o registro da nomeação de Matias não há o menor sinal de impaciência da parte de Pedro ou de ele "inventar" o que quer que fosse. O nosso Senhor, tendo em vista a Sua ascensão ao céu, nomeou Pedro como chefe dos apóstolos e da Igreja Messiânica (Mt.16:19; cf. 18:18-19). Portanto, era perfeitamente apropriado que ele tomasse a liderança neste assunto.

Além disso, enquanto que naquela hora o Espírito ainda não tinha descido em poder, com os sinais miraculosos do reino, estes apóstolos tinham recebido o Espírito Santo (Ver Jo.20:22).

UM ATO BANHADO EM ORAÇÃO

Na Página 14 do seu livreto, o Dr. X afirmou: "Eles deveriam ter orado acerca disto ANTES de fazerem a nomeação da sua escolha" (Ênfase dele). Em mensagens anteriores ele também deu a impressão de que os onze, atuando na carne, meramente escolheram dois homens e depois pediram a Deus que ratificasse o que eles tinham decidido. Mas nada podia ser mais longe da verdade.

Como já vimos em At.1:13-14, os apóstolos e os discípulos tinham perseverado "unanimemente em oração e súplicas" desde a ascensão de nosso Senhor e foi "naqueles dias" que Pedro levantou para propor a questão do sucessor de Judas. Alem disso, à luz dos estritos requisitos para se alcançar posição entre os doze, juntamente a quaisquer outros requisitos naturais, é extremamente duvidoso que mais do que dois pudessem ser qualificados, pois o escolhido deveria ter andado com Jesus Cristo e os apóstolos "todo o tempo... Começando desde o batismo de João [isto é, desde o princípio do Seu ministério] até ao dia em que de entre nós [Ele] foi recebido em cima", isto é, qualquer pretendente que tivesse andado com o nosso Senhor e os apóstolos durante todo o tempo decorrido desde o primeiro dia do seu ministério até ao último. Quantos o leitor supõe que seriam qualificáveis?

Mas mesmo depois do campo se ter diminuído a dois homens, os apóstolos não se estribaram no seu próprio entendimento (Pr.3:5) mas oraram de novo, rogando fervorosamente ao Senhor, "Tu, Senhor, conhecedor dos corações de todos, mostra qual destes dois tens escolhido" (At.1:24).

E para se guardarem completamente de exercitarem a vontade própria deles mesmos na questão, lançaram sortes. E em oração, deixaram o resultado com o Senhor.

Que injustiça, então, da parte do Dr. X levantar acusações de obstinação por um lado, e de jogo a dinheiro por outro, contra homens que, segundo o Registro Sagrado, tomaram todas as precauções contra o exercício das suas próprias vontades, e em espírito de oração – e biblicamente – lançaram sortes para se certificarem de que Deus exerceria a Sua vontade!

O LANÇAMENTO DE SORTES

O Dr. X acusou repetidas vezes em tom de desprezo os apóstolos por estes terem lançado dados, jogado a dinheiro e entregue esta questão completamente à sorte. O que ele falhou em explicar é que numa situação dessas era tanto bíblico como apropriado lançar sortes.

Séculos antes este Deus tinha declarado que a terra de Canaã seria para Israel e repartida por sortes (Nm.26:55) e o livro de Josué descreve como isto foi feito. Tratava-se dum método conhecido do Velho Testamento para descobrir a vontade de Deus em questões deste tipo e não tinha nada a ver com o jogo a dinheiro dos nossos dias, no qual os homens confiam na "sorte". Pr.16:33 afirma claramente: "A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda a determinação".

Devemos perguntar aqui com seriedade: Quem é que, lendo com a mente e coração abertos o registro da designação de Matias, associaria este incidente ao "jogo a dinheiro" ou a um jogo "de sorte"? Nós não somos cientes de que os jogadores a dinheiro orarem para que o Senhor exerça a Sua vontade no lançamento dos dados. Mas, evidentemente, o Dr. X não leu este registro com uma mente e coração abertos. Ele tomou consistentemente uma posição contra o apostolado distinto de Paulo. Ele tinha, pensava ele, que tornar Paulo um dos doze, operando sob a chamada "grande comissão", e tristemente, isto envolvia desacreditar tanto Paulo como os apóstolos da circuncisão.

À luz das falsas acusações do Dr. X contra Paulo e os doze, não é de estranhar que, publicamente, fizesse falsas acusações contra os que se levantam pela grande mensagem Paulina do "Mistério".

PORQUE PAULO NÃO PODIA TER SIDO UM DOS DOZE

O Dr. X apresenta como objeção – quem sabe com que autoridade? – que "por onde fosse que Paulo ia, tinha que defender a sua ordenação divina como um dos doze" e também tinha de defender-se da "acusação de que Matias... era o verdadeiro apóstolo" (Pg.15). Ele declarou que "a impaciência de Pedro foi a causa do erro que causou a Paulo tanto sofrimento, mais tarde" (Pg.16-17). Ele não mostrou uma passagem sequer das Escrituras para provar tudo isto, mas se ao considerarmos o registro das Escrituras, há um fato que, sem sombra de dúvida é certo, é o fato de Paulo não poder ter sido um dos doze apóstolos. Ele nunca foi, em qualquer momento, elegível para esta posição. Eis algumas das razões:

1. Paulo não foi salvo senão algum tempo depois de Pentecostes, por isso não podia ter sido nomeado como sucessor de Judas em tempo para Pentecostes e da oferta do reino (Cf., At.2:14).

2. Se a sua nomeação pudesse ter esperado, ele não poderia ser elegível em momento algum para o apostolado entre os doze. Ele nunca tinha "seguido" a Cristo, muito menos "entrou e saiu" com Ele e os Seus apóstolos desde o primeiro dia do Seu ministério até ao último (Ver Mt.19:28; At.1:20; I Co.15:8).

3. Matias "foi contado com os onze apóstolos... E todos foram cheios do Espírito Santo" (At.1:26; 2:4). Isto, só por si, é uma prova suficiente de que Matias, e não Paulo, foi a escolha de Deus para o lugar de Judas. Se os apóstolos e discípulos tivessem estado fora da vontade de Deus na nomeação de Matias, podemos ter a certeza de que nenhum deles teria sido cheio do Espírito Santo, e se Matias tivesse sido o homem errado para esta importante posição, certamente ele não teria sido cheio do Espírito. Mas o registro, refutando os argumentos confusos do Dr. X, declara que eles "todos foram cheios do Espírito Santo".

4. Paulo foi erguido para um ministério especial, separado e distinto do dos doze (Ver At.20:24; Gl.1:11-12, 17-19; 2:2,7-9; Rm.11:13; 15:15-16; Ef.3:1-3).

5. Paulo refere-se consistentemente aos doze como um corpo separado de apóstolos, como em I Co.15:5-8, onde ele declara: "E que [Cristo] foi visto... pelos doze. ...E por derradeiro de todos me apareceu também a mim...". Além disso, esta referência inspirada aos doze apóstolos entre a ressurreição e a ascensão de Cristo é uma prova adicional de que Deus considerou Matias um dos doze mesmo antes da sua nomeação oficial em Atos 1. Evidentemente ele estava com os apóstolos quando o Cristo ressuscitado lhes apareceu (At.1:20-23).

Paulo, então, não pode ser legitimamente considerado um dos doze apóstolos. Nem sequer pode ser considerado com os doze, como tantos o vêem. Do mesmo modo que onze apóstolos teriam sido poucos para os doze tronos prometidos, treze teriam sido demasiados. Evidentemente Deus teve uma razão muito especial para levantar Paulo mais tarde.

CONFUSÃO AGRAVADA

Referindo-se aos dias pré-pentecostais, o Dr. X disse: "Eles ainda não conheciam nada acerca da Igreja. Isto ainda era um mistério, que não seria revelado antes da vinda do Espírito Santo" (Pg.6) e "os discípulos deveriam ESPERAR que o Espírito Santo lhes desse instruções para levarem a cabo o programa para a Igreja" (Pg.12, ênfase dele). Isto é muito estranho, porque se eles deveriam aprender acerca da Igreja, o Corpo de Cristo, em Pentecostes, como é que eles só começaram a oferecer o reino depois de Pentecostes? (At.2:29-31; 3:19-21). Não foi devido à rejeição do reino por parte de Israel que Deus começou a formar "o Corpo de Cristo", com a sua posição e chamamento celestiais?

O Dr. X afirmou na Pg.20: "Quão alegres estamos por os discípulos terem estado no lugar onde podiam receber o Espírito Santo!" Mas, perguntamos, que diferença haveria se eles não aceitassem o ensino do Espírito acerca do Corpo e proclamassem, em vez disso, o reino?

E se estes apóstolos da circuncisão deveriam aprender em Pentecostes o mistério do Corpo, a Igreja de hoje, como é que Paulo declarou mais tarde (?):

"Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios;
"Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me [não "nós"] foi dada;
"Como me foi este mistério manifestado pela revelação..."
"A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo,
"E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo" (Ef.3:1-3,8-9).
"Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto" (Rm.16:25).

Além disso, se, como o Dr. X concorda, os gentios não foram sequer contemplados em Pentecostes, como é que os doze apóstolos podiam estar proclamando a verdade do "um só corpo" composto de crentes judeus e gentios batizados num corpo único? (I Co.12:13).

Ora, o Dr. X ensinou que "Pentecostes para a Igreja aconteceu uma única vez" (Pg.20) e que naquela época, e nunca mais depois, os crentes foram batizados no Corpo de Cristo. No seu livreto Nº. 2 sobre Atos, ele declara: "Este derramamento do Espírito em Pentecostes é o UM SÓ BATISMO de Efésios 4" (Pg.4, ênfase dele).

Não é, então, estranho, que no mesmo livreto, numa passagem onde ele cita I Co.12:13, ele omita as palavras, "quer judeus, quer gregos [gentios]", pois em Pentecostes, onde ele disse que o batismo no corpo único ocorreu "uma única vez", os gentios não estavam incluídos (Ver At.2:5,14,22,36) como estão em I Co.12:13.

E além disso, se o Espírito Santo em Pentecostes revelou o mistério do Corpo e a dispensação da graça aos doze, como é que Pedro ordenou aos seus ouvintes arrependidos para serem "batizado[s]... para perdão dos pecados"? (At.2:38). A resposta é que o mistério não foi revelado em Pentecostes e que os doze trabalharam sob uma comissão do reino, que estipulava: "Quem crer e for batizado será salvo..." (Mc.16:16).

Porém, a confusão é agravada quando o Dr. X insiste que Paulo era um dos doze, entretanto reconhece que aos doze foram prometidos doze tronos no reino e, em Pentecostes, pregaram uma mensagem do reino! Que absurdo ter Paulo, o apóstolo dos gentios, reinando com os doze sobre as doze tribos de Israel! E não vamos discutir aqui se o Dr. X defendia ou não esta posição, pois ele escreveu a este respeito: "na Igreja não há apóstolos. Esses pertencem ao reino" (Pg.16).

Esta última declaração é quase impossível de se acreditar quando se sabe que vem de alguém que há muito está familiarizado com passagens como as seguintes:

"E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos..." (I Co.12:28).
"E Ele mesmo deu uns para apóstolos... querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo" (Ef.4:11-12).

O Dr. X diz: "Na Igreja não há apóstolos. Esses pertencem ao Reino". Deus diz: primeiramente Deus pôs na Igreja, apóstolos.(1) Quem está certo? Deus ou o Dr. X?

Certamente o nosso irmão sabia que Paulo se dirige repetidas vezes às igrejas gentias locais como "apóstolo de Jesus Cristo". Mas esta confusão é comum com os que se rebelam contra qualquer segmento da Palavra de Deus clara e se esforçam por a deturpar.

Declarações como as acima citadas só podem ser explicadas pela determinação cega do Dr. X em fazer de Paulo um dos doze apóstolos do reino e assim esvaziar o caráter especial do seu apostolado quando associado à Igreja atual. Parece que ele fechou simplesmente os olhos até para as passagens mais claras das Escrituras que contradiziam esta teoria.

Uma vez mais, se, como o nosso irmão declarou, "os discípulos deveriam ESPERAR pelo Espírito Santo afim de Ele lhes dar instruções para levarem a cabo o programa para a Igreja", porque ele lamentou "a recente propagação rápida do pentecostalismo", a que ele se refere na Página 1? Um dos principais resultados da vinda do Espírito Santo foi o dom de línguas e outros sinais milagrosos. E estes sinais foram adicionalmente concedidos aos que obedeceram ao mandamento para se arrependerem e serem "batizado[s]... para o perdão dos pecados" (At.2:38). Ora, se o Espírito Santo veio deveria vir em Pentecostes para dar instruções para a execução do programa para a Igreja desta dispensação, como o Dr. X defendeu, o que há de errado com o pentecostalismo ou com o batismo para o perdão dos pecados? O nosso irmão não teria sido mais consistente se se unisse aos pentecostais (que procuram restabelecer os sinais pentecostais) ou aos Campbelitas, à chamada "Igreja de Cristo" (que insiste no batismo na água para a salvação)? Mas estas duas denominações estão também extremamente divididas – porque nenhuma delas reconhece o apostolado e ministério especial de Paulo!

Referindo-se ao ministério dos apóstolos sob a comissão de nosso Senhor em Mt.10:5-7, o nosso irmão escreveu: "Mas esta oferta do Reino não foi aceito e em vez de se assentar no Trono de Davi, Ele foi rejeitado pela nação e mandado para a cruz ..." (Pg.10).

Mas onde encontramos qualquer oferta do reino antes da cruz, ou alguma alusão de que, como Israel rejeitou o reino, o nosso Senhor "foi, em vez disso, para a cruz"? Como Ele podia oferecer o estabelecimento do reino antes de ir à cruz? Há dezenas de passagens nas Escrituras que provam que o reino em glória de Cristo seguir-se-ia aos Seus sofrimentos (Lc.24:46; I Pe.1:11; etc.). É por isto que não encontramos uma única oferta que seja do reino antes de Pentecostes – quando o Dr. X disse que a Igreja desta dispensação começou – mas só depois!

O Dr. X não negou que na primeira parte de Atos os doze "ainda pregavam a mensagem do reino" (Pg.17-18), mas notemos a sua explicação disto:

"O impetuoso e impaciente Pedro", disse ele, não esperou que o Espírito o guiasse, porque "ele ainda estava pensando em estabelecer o reino...". "Este tinha sido adiado", (2) disse ele, "mas Pedro não podia aceitar essa idéia" (Pg.12).

Assim, segundo o Dr. X, Pedro e os onze também proclamaram o reino na energia da carne – um reino que já tinha sido adiado! Nós lemos At.2:4 e dizemos, Que confusão!

Tudo isto dá-nos grande confiança na nossa convicção de que a Igreja da atualidade, o Corpo de Cristo, não teve o seu começo histórico senão mais tarde, com o levantamento de Paulo, aquele outro apóstolo.

Ah, se os nossos oponentes tão somente quisessem ver isto, que é, na verdade, tão simples. Mas Satanás odeia esta verdade e ele, que "cegou os entendimentos dos incrédulos", também faz o melhor possível para confundir os que crêem em Cristo.

Sobre o que, de fato, lemos na chamada "Grande Comissão" e no registro de Pentecostes? Lemos alguma palavra que seja acerca de "o evangelho da graça de Deus", ou da salvação dos gentios por meio da queda de Israel, ou do Um Só Corpo, a Igreja atual? Nem uma só palavra. Pelo contrário, lemos do arrependimento e do batismo para a remissão dos pecados, dos sinais milagrosos e de Cristo como Rei (Ver Mt.28:18-20; Mc.16:15-18; Lc.24:47; At.1-3). Não é até Paulo que aprendemos da salvação pela graça por meio da fé, "sem as obras da lei" (Rm.3:12-28), ou da salvação dos gentios por meio da queda de Israel (Rm.11:11), ou da "Igreja que é o Seu Corpo [de Cristo]" (Ef.1:22-23). Assim, os doze apóstolos representavam Israel, com as suas doze tribos, enquanto que Paulo representa o um só Corpo.

Não é necessário fazer muita investigação para se saber que o reino Messiânico foi profetizado na época do Velho Testamento, proclamado como "próximo" durante o ministério terreno de nosso Senhor, e oferecido quando o Espírito Santo veio em Pentecostes.

Como a Igreja, o Corpo de Cristo, poderia ter começado em Pentecostes, quando a primeira oferta do reino foi feita apenas em Atos 3? O Dr. X disse que Pedro "não podia aceitar a idéia" de que o reino tivesse já sido adiado antes de Pentecostes (Pg.12). De fato, Pedro estava certo e o Dr. X errado. O reino não tinha sido adiado, e não seria adiado antes da oração do Senhor Jesus na cruz (Lc.23:34) ser respondida e de Israel ter uma segunda oportunidade em Pentecostes.

Foi por isso que Pedro, cheio do Espírito, ofereceu "o arrependimento e a remissão dos pecados" (At.5:31) e prometeu que Cristo e "os tempos do refrigério" viriam "pela presença do Senhor", se eles se arrependessem e se convertessem (At.3:19-20).

Foi o Dr. X que não aceitou, ou não quis aceitar, o grande volume de referências que testifica do caráter distinto da posição de Paulo como "apóstolo dos gentios" e da presente dispensação da graça de Deus (Ef.3:19-20).

Para alguns dos nossos leitores isto poderá parecer uma questão trivial. Mas, de fato, é de enorme e vital importância.

Estranhamente, o Dr. X, seguiu às epístolas paulinas ao proclamar a salvação apenas pela graça, por meio da fé. Porém, ele também defendeu que nós devemos trabalhar sob a chamada "grande comissão" e que as instruções para o programa da Igreja de hoje foram dadas pelo Espírito Santo em Pentecostes. A que conclusão, então, pode chegar a pessoa incrédula quando lê os vários registros da "grande comissão" e a história de Pentecostes? Ela poderia concluir: "O Dr. X afirma que a salvação é apenas pela graça, por meio da fé, mas a "grande comissão" diz: "Quem crer e for batizado será salvo". E Pedro, operando sob a "grande comissão", disse: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados". E como o Dr. X e os seus seguidores poderiam responder aos Adventistas do Sétimo Dia à luz de Mt.28:20, ou aos Pentecostais à luz de Mc.16:17-18, ou aos Campbelistas à luz de Mc.16:16 e At.2:38, ou a outros grupos não idôneos à luz de outras partes da "grande comissão", uma comissão que já esteve, mas não está mais, em vigor?

A confusão do Dr. X sobre estes assuntos realmente foi enorme, mas foi típica da confusão existente nas fileiras de todos os que negam o caráter distinto do apostolado e ministério de Paulo e se mantêm a falar – apenas a falar – sobre "o obeceder-se à Grande Comissão".

No caso deste irmão, receamos que a cegueira tenha sido voluntária, pois ele difamou e deturpou publicamente os que defendiam a grande revelação paulina, acusando-os de heresias que eles nunca ensinaram. Enquanto ele escreveu da "insistência de Paulo em fazer a sua própria vontade" (Blunders of Paul, Pg.16), foi, pelo contrário, ele quem insistiu em fazer a sua própria vontade neste assunto. Talvez ele devesse citar a si mesmo uma das suas declarações acerca de Paulo: "Quão terrível é o pecado da desobediência! Como cega uma pessoa e deforma a sua razão e juízo!" (Ibid, Pg.16).

Deus sabe que nós nunca tivemos a mínima má vontade para com este homem de Deus que foi usado para alcançar um número elevado de almas com a Palavra, ainda que admitindo que algumas vezes a Palavra de Deus tenha sido mal manejada. Nós publicamos o que foi escrito acima apenas para que os nossos leitores possam ver claramente a confusão que resulta de uma negação da importante verdade bíblica de que Paulo é o nosso apóstolo e o apóstolo da presente dispensação da graça de Deus. E também para que todos possam ver que colocar-se sob a comissão dada aos doze (temporariamente onze) significa trabalhar sob a comissão errada.

Que enorme poder espiritual a Igreja poderia exercer se conhecesse Cristo como é apresentado por Paulo na sua mensagem de graça e glória! Quanta confusão seria dissipada, quanta divisão desapareceria! O resultado seria um reavivamento espiritual refrescante! É disto que a Igreja e o nosso pobre mundo precisa hoje. Até quando os nossos líderes fundamentalistas resistirão à verdade de Deus e impedirão o verdadeiro reavivamento? Até quando continuarão a operar sob a comissão errada; uma comissão que nenhum deles pode obedecer, quer completa quer fielmente?


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