PAULO FOI PRESUNÇOSO?A SUA DEFESA DE SEU APOSTOLADO
No primeiro capítulo deste livro debatemos a questão: Será Que Pensamos De Paulo Mais Do Que Ele É? Neste capítulo consideremos uma questão adicional: Será Que Paulo Pensou Demais Dele Mesmo?
A maior parte das pessoas pensa em Paulo como sendo mais ou menos da mesma graduação de Pedro, Tiago e João e o resto dos apóstolos do Senhor. Pensam, e corretamente, que os doze e Paulo foram, todos eles, apóstolos nomeados pelo próprio Cristo e enviados a testemunharem acerca Dele. Como já vimos, alguns até consideram Paulo um dos doze, a escolha de Deus como sucessor de Judas.
Mas eis que surge Paulo e nega a maior parte destas alegações. Na verdade o elemento pessoal destaca-se proeminentemente nas suas epístolas. Ele refere-se si mesmo pelo nome umas trinta vezes nestas poucas epístolas e pelo pronome pessoal centenas de vezes.
Eis que surge Paulo falando repetidas vezes de "o meu evangelho". Em Rm.2:16 ele diz, "Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho". Em Rm.16:25 ele começa uma bênção com as palavras, "Ora, Àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho...". E em II Tm.2:8 ele diz, "Lembra-te de que Jesus Cristo, que é da descendência de Davi, ressuscitou dentre os mortos, segundo o meu evangelho...".
Eis que surge Paulo referindo-se ao "evangelho que por mim foi anunciado" (Gl.1:11) e ao "evangelho, que prego" (Gl.2:2). E este tipo de fraseologia é encontrado ao longo dos seus escritos.
De fato, ele vai mesmo mais longe do que isto, pois ele é o único de todos os apóstolos que põe nos seus próprios lábios as palavras de nosso Senhor, "Segue[i]-me". Ele exorta duas vezes os coríntios: "Sede meus imitadores" (I Co.4:16; 11:1), e diz aos filipenses, "Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam" (Fp.3:17). Este tipo de fraseologia também é familiar nas epístolas de Paulo.
E mesmo isto não é tudo, pois em II Co.11:5 ele declara,
"Porque penso que em nada fui inferior aos mais excelentes apóstolos".
Teria Paulo o direito de promover deste modo o seu próprio ministério e distingui-lo do dos doze? Certamente aqueles que defendem que Paulo e os doze proclamaram todos a mesma mensagem nunca deram uma explicação satisfatória deste aspecto das suas epístolas.
E quando consideramos as convicções de Paulo na epístola aos gálatas – e os ensinamentos do Espírito Santo quanto à singularidade da sua posição, esta torna-se cada vez mais pronunciada. Ele toma aqui em Gálatas, quase dois capítulos para defender o seu apostolado, que evidentemente tinha sido posto em dúvida. Neste dois capítulos ele parece minimizar os apóstolos em Jerusalém e exaltar o seu próprio apostolado. Nos versículos onze e doze do primeiro capítulo ele certifica os gálatas que não tinha recebido a sua mensagem dos doze ou de qualquer fonte humana, mas por revelação direta do Senhor glorificado.
De fato, em Gl.2:2-5 ele declara: "E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios..." e acrescenta que, quando, em Jerusalém, alguns insistiram que Tito devia ser circuncidado, ele "nem ainda por uma hora cede[u]mos com sujeição", para que o seu "evangelho da graça de Deus" continuasse ininterrupto entre os crentes gentios em Antioquia.
No v.6 ele refere-se a Tiago, Pedro e João (nesta ordem) como aqueles "que pareciam ser alguma coisa", (1) e acrescenta:
"...nada me comunicaram;
"Antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão...
"E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão" (v.6-9).
Consideremos bem o que sucedeu aqui. Os doze apóstolos, que originalmente tinham sido enviados a "todo o mundo" e a "todas as nações", agora, através dos seus líderes, transferiram a evangelização dos gentios para Paulo, concordando, dali em diante em limitar o seu próprio ministério a Israel! Assim, Paulo declara aos romanos, não com orgulho, mas por inspiração do Espírito Santo:
"Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério!" (Rm.11:13)
E ele demonstra esta autoridade em Antioquia, onde Pedro teria comprometido a decisão que, sob a direção do Espírito, tinha sido tomada no Conselho de Jerusalém. Leiamos as palavras dele em Gl.2:11,14:
"E, chegando Pedro a Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível" .
"...quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?"
E isto foi publicado numa carta às "igrejas da Galácia".
Neste ponto quase que somos tentados a fazer uma pausa para dizer a Paulo: "Esqueceu a sua posição? Está consciente de que vai fazer do líder dos doze apóstolos um exemplo público? Não deveria considerar que ele foi apóstolo antes de você, que você apenas foi nomeado para esta posição recentemente? Já esqueceu que o próprio Senhor deu a Pedro as chaves do reino dos céus e que milhares de almas se salvaram por meio do seu ministério?" Isto seria difícil de explicar se nós não compreendêssemos "o mistério", o segredo.
Mas mesmo isto não é tudo. Uma das declarações mais fortes de Paulo, nesta relação, encontra-se em Gl.1:8, onde diz:
"Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema".
E ele pretende mesmo ser duro, pois no versículo a seguir ele repete-se enfaticamente:
"Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema".
Portanto, Paulo pronuncia mesmo uma maldição sobre qualquer um que ouse pregar aos gentios qualquer outro evangelho além daquele que ele lhes pregou. Quando isto é considerado à luz de Gl.2:7, vê-se a seriedade desta maldição, pois "o evangelho da circuncisão" certamente que não era o mesmo que "o evangelho da incircuncisão".
Como explicaremos tudo isto?
Suponhamos por um momento que eu, autor deste livro, comece a falar sobre o "meu evangelho!" O leitor não me condenaria por eu me colocar acima de outros servos de Cristo e por pregar um outro evangelho? De fato, o leitor diria corretamente: "Se este evangelho é seu, não desejo escutá-lo!"
E suponha que eu diga às minhas platéias: "Irmãos, sede meus imitadores!". O leitor não exclamaria: "Que grande orgulho!"?
EXPLICAÇÕES INADEQUADAS
Ao procurarem explicar estas declarações de Paulo alguns deturpam-nas! Afirmam que a expressão que ele usa, "o meu evangelho", significa simplesmente que ele também pregava o evangelho, e negam que isso distinga a sua mensagem da dos doze. Dizem que quando ele disse aos outros para o seguirem ele queria dizer meramente que eles deveriam imitar o seu principal propósito de vida. Argumentam que quando ele subiu a Jerusalém para comunicar o seu evangelho aos doze foi apenas para se certificar junto deles de que estavam todos pregando a mesma coisa. Porém, tudo isto é contrário ao significado simples e óbvio das palavras dele.
Poucos há que argumentem que Paulo poderia dizer, "sede meus imitadores" porque ele vivia de fato uma vida exemplar, mas é claro que esta explicação também é muito inadequada. Se, hoje, o cristão mais sincero e piedoso começasse a dizer, "Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam", constataríamos logo que ele perdeu toda a humildade e espiritualidade. Haverá algum homem que seja seguro seguir em tudo? Paulo não tinha problemas com a sua velha natureza? (Ver Rm.7:18, 21-24).
Como, então, explicaremos a aparente presunção de Paulo; a insistência dele na distinção do seu ministério e mensagem, o seu minimizar aparente dos outros apóstolos para exaltar o seu próprio apostolado, a sua insistência de que no seu encontro com eles estes nada lhe comunicaram a ele mas sim ele a eles, a sua recusa em ceder aos líderes cristãos hebreus mesmo que fosse por uma hora, a sua repreensão pública a Pedro, o seu convite aos outros para que o seguissem, a sua maldição sobre quem ousasse pregar aos gentios outro evangelho além daquele que ele lhes tinha anunciado? Como explicaremos tudo isto?
A resposta a esta questão sobre a ênfase de Paulo em seu próprio ministério é a chave para toda a mensagem da graça.
A GLÓRIA DA GRAÇA DE DEUS
Nós não devemos esquecer que a mesma pessoa que diz em II Co.11:5: "Penso que em nada fui inferior aos mais excelentes apóstolos", também diz em I Co.15:9-10:
"Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus. MAS PELA GRAÇA DE DEUS SOU O QUE SOU".
É na última cláusula deste versículo que encontramos a solução para todo o problema: "Pela graça de Deus sou o que sou".
Em conjunção imediata com a "presunção" de Paulo temos o reconhecimento dele de que ele em si mesmo não é nada. Em outras passagens ele denomina-se de o principal dos pecadores e "o mínimo de todos os santos", e em cada caso ele magnifica a graça de Deus ao torná-lo no que agora é.
O fato glorioso foi Deus ter tomado Saulo, o líder culpado da rebelião contra Cristo, e tê-lo tornado no arauto e na demonstração viva da Sua graça infinita. Por conseguinte, quando Paulo defende e exalta o seu próprio apostolado, não o faz para sua própria glória, mas para a glória de Deus; não para exaltar a si mesmo, mas para exaltar a graça de Deus. Ele associa de forma consistente o seu apostolado às riquezas da graça de Deus. Notemos os seguintes exemplos deste fato; notemo-los com atenção:
Rm.1:5: "Pelo qual recebemos a graça e o apostolado..."
Rm.12:3: "Porque pela graça que me é dada..."
Rm.15:15-16: "Mas, irmãos, em parte vos escrevi mais ousadamente... pela graça que por Deus me foi dada; que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios...".
I Co.15:9-10 "Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo... Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a Sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo".
Gl.1:15-16: "...aprouve a Deus, que... me separou, e me chamou pela Sua graça, revelar Seu Filho em mim, para que O pregasse entre os gentios...".
Gl.2:9: "E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão".
Ef.3:8: "A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo".
Não há dúvida de que a passagem mais notável em que Paulo associa o seu apostolado à graça de Deus é I Tm.1:12-16:
"E dou graças Ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério;
"A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade.
"E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo.
"Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.
"Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a Sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer Nele para a vida eterna".Nós não devemos esquecer de considerar a posição anterior do apóstolo quando estudamos o seu papel subseqüente no programa de Deus. Nós só podemos compreender Paulo depois de primeiro termos considerado Saulo. Na passagem que acabamos de citar ele maravilha-se de Deus o ter colocado no ministério, ele que antes tinha sido "blasfemo, e perseguidor, e injurioso" e explica isto salientando apenas que "a graça de nosso Senhor superabundou".
Quando Paulo se denomina aqui de o "principal dos pecadores" ele não quer dizer com isso que fosse o pior dos pecadores. Judas, os fariseus e os saduceus foram, sem dúvida, mais sem escrúpulos nos seus pecados do que ele, mas a posição de Paulo como líder inflamado da rebelião contra Cristo, tornou-o o "principal" dos pecadores. Ele era o maior inimigo de Deus na terra.
Observemos o panorama historicamente. Deus tinha desistido das ímpias nações gentias e tinha escolhido uma única nação, a nação hebraica, para ser Sua, e agora, eis que esta nação se rebela contra Ele! E quem é o líder da rebelião? O livro dos Atos responde a isto com demasiada clareza para o não compreendermos. Não foi o Sumo Sacerdote nem o Sinédrio. Foi Saulo de Tarso que tomou a iniciativa da feroz perseguição contra Cristo. Era ele que "assolava a Igreja" e foi ele que, "respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao Sumo Sacerdote. E pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns daquela seita, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém" (At.8:3 e 9:1-2). E estas são apenas duas passagens de uma longa lista que indica a intensidade da inimizade de Saulo contra o Senhor Jesus Cristo e os Seus discípulos.
A palavra "principal", então, não implica meramente grau mas posição hierárquica, e não é estranho que este termo seja aplicado a quem inspirou e liderou a rebelião feroz e agressiva que levou Deus a pôr Israel de lado ("por algum tempo") e encerrar a nação, juntamente com os gentios, em incredulidade.
Existe uma tendência para desculpar Paulo porque ele diz: "o fiz ignorantemente, na incredulidade". É verdade que a sinceridade do seu ódio por Cristo levou Deus a compadecer-se dele para o salvar, mas não devemos supor que a sua ignorância era desculpável. Ele podia e devia ter sabido que Jesus era o Cristo e nesta mesma passagem, o Espírito Santo, por intermédio do próprio Paulo, enfatiza as superabundantes riquezas da graça de Deus para com Saulo, o pecador.
Decerto que foi a sublime graça de Deus que tomou este homem e o salvou e o colocou no ministério e é porque o apostolado de Paulo é a demonstração suprema da infinita graça de Deus para com os pecadores que ele o defendeu tão vigorosamente.
Ele diz na mesma passagem:
"Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna".
O Senhor rejeitado revelou, preeminentemente em Paulo, toda a longanimidade. Paulo era o modelo para os que a partir de então cressem em Cristo para a vida eterna. Ele até foi mesmo modelo para a nação de Israel, que também tem de aprender que "não há diferença" (Rm.3:22-23; 10:12-13) e, uma vez tendo aprendido isto, um dia será salva totalmente e apenas pela incomparável graça de Deus.
Durante séculos, a igreja, como um todo, perdeu de vista a posição distinta que Paulo ocupa no programa de Deus. Tem-no chamado de "um dos apóstolos", esquecendo-se que os doze foram enviados a todo o mundo em relação à aceitação de Cristo, o levantamento de Israel e a autoridade de Deus. Paulo foi enviado a todo o mundo em vista da rejeição de Cristo, a queda de Israel e à graça de Deus.
Como resultado, multidões de crentes fervorosos não têm conseguido explicar, até a presente data, a aparente presunção de Paulo, ficando completamente confusos e divergentes quanto à mensagem e programa de Deus para hoje. Pensemos na confusão que ainda prevalece em relação aos sinais dos tempos, à obra do Espírito Santo, ao batismo na água e ao retorno de Cristo, e tudo sem necessidade, em vista do que as Escrituras dizem com tanta clareza sobre o caráter distinto do apostolado e da mensagem de Paulo.
À luz das Escrituras aqui consideradas, é difícil de compreender como os líderes fundamentalistas e mestres dispensacionalistas da Bíblia podem continuar a defender que não há nenhuma diferença básica entre as mensagens de Paulo e dos doze. Mas ao defenderem isso a sua própria confusão e divisão agravam-se.
Questionemos por um momento o caráter distinto do ministério de Paulo, ou coloquemo-lo na mesma categoria da dos doze, e obscureceremos a glória da maravilhosa graça de Deus e ensombraremos o seu propósito eterno em Cristo. É por isso que, por assim dizer, Paulo coloca na mesa o "certificado da sua ordenação", com a declaração:
"Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens.
"Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo" (Gl.1:11-12).
E é por isso que ele declara, por inspiração divina:
Tenhamos, então, cuidado em não desrespeitar o que Deus tão enfaticamente "certifica", nem em minimizar o que Ele magnifica, para que não O desonremos nem percamos as Suas bênçãos mais sublimes. Pelo contrário, recebamos sinceramente a Sua Palavra e experimentemos no maior grau possível, o poder que Paulo experimentou no Seu ministério para Cristo.
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