O MINISTÉRIO DE PRISÃO DE PAULO

DERROTA OU TRIUNFO?

O aprisionamento de Paulo em Roma enriqueceu a Igreja com as suas cartas mais preciosas – aquelas que nos conduzem ao pináculo da verdade espiritual, como por exemplo, Efésios, que tem tanto a dizer acerca do Corpo, Colossenses que exalta tanto o Cabeça, e Filipenses, onde vemos o Cabeça trabalhando através do Corpo.

Com isto em mente consideremos se Paulo agiu bem ou mal ao fazer a sua última jornada a Jerusalém – que teve como resultado o seu aprisionamento em Roma.

Na nossa pesquisa sobre este assunto ficamos espantados com duas coisas: 1) a extrema escassez de escritos compreensivos sobre um assunto tão manifestamente significativo, e 2) o fato de que as breves anotações na maioria dos comentários sobre Atos serem tão parciais, ignorando os argumentos dum lado ou do outro, segundo os pontos de vista do escritor.

Por conseguinte listaremos os principais argumentos bíblicos de ambos os lados para vermos como podem ser reconciliados.

OS ARGUMENTOS A FAVOR DA IDA DE PAULO A JERUSALÉM NESTA ÉPOCA

1) Os planos de Paulo não foram feitos "segundo a carne" (II Co.1:15-17).
2) Mais tarde, diante do Sinédrio, e mais tarde ainda, numa carta a Timóteo, o apóstolo declarou que desde a sua juventude tinha servido a Deus com uma consciência pura (At.23:1; II Tm.1:3).
3) Ele afirmou a sua determinação em continuar a jornada para Jerusalém para que pudesse acabar a sua carreira e ministério "com alegria" (At.20:24).
4) Quando os amigos dele não conseguiram dissuadi-lo do seu propósito de ir a Jerusalém, disseram: "Faça-se a vontade do Senhor" (At.21:14).
5) Depois de Paulo ter chegado a Jerusalém o Senhor, em vez de o repreender, encorajou-o, dizendo, "Paulo, tem ânimo; porque, como de mim testificaste em Jerusalém, assim importa que testifiques também em Roma" (At.23:11).
6) Pouco antes de morrer, Paulo escreveu: "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé" (II Tm.4:7), o que, alega-se, não poderia ter afirmado se tivesse estado fora da vontade do Senhor ao efetuar esta jornada para Jerusalém.

No entanto estes argumentos não são tão conclusivos como à primeira vista parecem.

Quanto ao Nº 1 acima, o apóstolo, em II Co.1:15-17, não se referia a todos os seus planos, ou propósitos, muito menos ao seu propósito de visitar Jerusalém pela última vez. Pelo contrário, referiu-se ao seu primeiro plano de visitar os coríntios (v.15). Foi com respeito à mudança no seu plano que ele protestou: "E, deliberando isto, usei porventura de leviandade? Ou o que delibero, o delibero segundo a carne, para que haja em mim sim, sim, e não, não?" (v.17).

Quanto ao Nº 2, fica claro do seu próprio testemunho que ele estava longe da perfeição e que a sua alegação de ter vivido diante de Deus desde a sua juventude com uma consciência pura refere-se, não a todos os detalhes da sua vida, mas ao rumo que ele adotou quando no princípio se opôs a Cristo, tendo-se virado depois para Ele e tendo-O servido. Na verdade, o fato de ele até ter perseguido Cristo com uma consciência pura (At.26:9) prova que é possível agir erradamente com uma consciência limpa, apesar de distorcida.

O Nº 4 será tratado logo mais, mas consideremos primeiro os números 5 e 6.

Ninguém negará que os motivos de Paulo na sua ida a Jerusalém nesta altura eram os mais elevados. Ele sentia-se profundamente endividado para com os seus patrícios e estava arriscando a sua própria vida indo pregar-lhes a graça. Será, então, estranho que Deus o encoraje depois da sua nobre posição diante da multidão enfurecida em Jerusalém e diante do Sinédrio? Não esperaríamos que Deus fizesse isso? Notemos como Ele encorajou o abatido Elias após a sua ousada tomada de posição no Monte Carmelo (I Re.19:5-8). O encorajamento que Deus deu a Paulo neste caso, de forma alguma prova que ele estivesse na vontade diretiva de Deus indo a Jerusalém nesta hora, ou que Deus o tenha enviado lá.

Assim, as palavras de resignação, "Faça-se a vontade do Senhor" (visto no Nº 4), referem-se à vontade de Deus permissiva, não à Sua vontade diretiva. Elas foram ditas quando o apóstolo não podia ser convencido.

Finalmente, quanto ao Nº 6: Tome qualquer falha que puder encontrar em Paulo no registro das Escrituras; depois compare-a com o resto do registro e pergunte a você mesmo se ele não era mais do que justificado afirmar: "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé". Qual de nós fez a metade que ele fez e tão bem feito?

OS ARGUMENTOS CONTRA A IDA DE PAULO A JERUSALÉM NESTA HORA

Estes argumentos, por sua vez, são sobretudo como se segue:

1) Muito tempo antes disto acontecer o Senhor tinha ordenado a Paulo que abandonasse Jerusalém, explicando: "[Eles] não receberão o teu testemunho acerca de mim" (At.22:18).
2) Não há nenhum registro de que Paulo tenha tido qualquer oportunidade para testemunhar do "evangelho da graça de Deus" em Jerusalém, como ele esperava. Certamente não o faria sujeitando-se a uma cerimônia judaica.
3) Não há nenhum registro de que o Senhor Jesus ou o Espírito Santo tivessem dirigido Paulo a fazer esta visita a Jerusalém (Cf. Gl.2:2). Se ele tivesse sido dirigido a ir, certamente isso teria sido declarado, especialmente em vista de todos os avisos e rogos contra a sua ida.
4) Quando no caminho, ele recebeu vários avisos do Espírito quanto ao que lhe sucederia se subisse a Jerusalém (At.20:23; 21:10-11) e é claramente declarado que os discípulos em Tiro "diziam a Paulo que não subisse a Jerusalém" (At.21:4).
5) Ele foi levado de Jerusalém para Roma como "o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios" (Ef.3:1). Ele também era prisioneiro por Cristo, mas nesta relação ele era prisioneiro de Cristo por amor dos gentios.

Temos de confessar que estamos perplexos por ver tão poucos comentaristas que compreendem o significado simples desta frase, "o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios". Ele não diz aqui que ele era um prisioneiro por Cristo (embora isso também fosse verdade). Ele não diz que era prisioneiro dos judeus ou dos romanos. Ele diz que era "o prisioneiro DE Jesus Cristo, POR vós, os gentios", isto é, Jesus Cristo estava mantendo-o na prisão por amor dos gentios, não como punição, mas para o coração dele ser guardado de voltar-se para os seus patrícios segundo a carne; aqueles por cuja apostasia ele se sentia tão grandemente responsável.

O ESPÍRITO DE PAULO E O ESPÍRITO SANTO

A questão em relação a quanto exatamente o Espírito Santo e o próprio espírito de Paulo estiveram envolvidos neste episódio não é realmente difícil de responder.

A palavra espírito (grego: pneuma) é usada cinco vezes no registro e nós cremos que em cada caso é claro se é ao espírito de Paulo que se refere ou ao Espírito Santo.

Em At.1:21 lemos que "Paulo propôs, em espírito, ir a Jerusalém". Ora, a frase "em espírito" é usada muitas vezes em relação ao próprio espírito (1) do homem e se não houvesse a necessidade de se provar alguma coisa, provavelmente nunca seria questionada a interpretação natural que Paulo resolveu no seu espírito ir a Jerusalém.

Notemos com cuidado que foi Paulo que se propôs ir a Jerusalém. Não seria esticar demais a verdade se for interpretado que isto significa que o Espírito Santo o guiou, ou o instruiu para que fosse?

Certamente isto não nega o fato do termo "no espírito" indica que foi a parte mais elevada do ser de Paulo que o moveu a ir. (2)

A Versão Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida, e, na verdade, a maioria das traduções, traduz a palavra "espírito" com um "e" minúsculo tanto em At.19:21 como em 20:22, como significado natural do original grego e esta tradução é confirmada pelo fato do Espírito Santo ser, inquestionavelmente, referido em todos os três avisos e exortações para não ir a Jerusalém.

Nós já vimos anteriormente que o próprio Paulo declarou que "o Espírito Santo" o avisou dos resultados que aconteceriam se ele fosse a Jerusalém nesta hora. E a esta declaração devemos acrescentar At.21:4, onde os discípulos em Tiro disseram "pelo Espírito... a Paulo que não subisse a Jerusalém" e At.21:10-11, onde "Ágabo... vindo ter conosco, tomou a cinta de Paulo, e ligando-se os seus próprios pés e mãos, disse: Isto diz o Espírito Santo: Assim ligarão os judeus em Jerusalém o homem de quem é esta cinta, e o entregarão nas mãos dos gentios".

Aqui a Versão Revista e Corrigida e a maioria das traduções, emprega o "E" maiúsculo e fá-lo bem, pois nestas duas passagens as referências são claramente ao Espírito Santo.

Assim, não pode haver aqui dúvidas de que Lucas e os outros companheiros de Paulo, como igualmente "os que eram daquele lugar", viram a profecia de Ágabo como um aviso de Deus quanto ao que sucederia a Paulo se ele persistisse no seu propósito de ir a Jerusalém, pois todos eles rogaram-lhe, com lágrimas, "que não subisse a Jerusalém" e foi só quando não puderam "convencê-lo" que eles disseram "Faça-se a vontade do Senhor [isto é, a Sua vontade permissiva]" (At.21:12-14).

A SOLUÇÃO

Por conseguinte, à luz de todos os principais textos das Escrituras que sustentam a questão da vontade de Deus na ida, ou não, de Paulo a Jerusalém nesta hora, encontramo-nos em melhor posição para encontrar a solução para o problema.

Primeiro, não há nenhuma indicação no registro de que Paulo estivesse na vontade diretiva de Deus ao fazer esta última jornada para Jerusalém, no entanto, também não é evidente que ele tenha estado conscientemente saído da vontade de Deus ao ir; na verdade, ele achava que devia ir, impelido pela parte mais elevada da sua natureza.

Nesta matéria Paulo apresentou três razões para ir a Jerusalém nesta hora: (1) "para ministrar aos santos" (Rm.15:25). (2) para "adorar" (At.20:16; 24:11) e (3) "para dar testemunho do evangelho da graça de Deus" (At.20:24). As duas primeiras visavam promover melhores relações entre os crentes judeus e as igrejas dos gentios e assegurar tanto a crentes como incrédulos em Jerusalém que ele não desprezava a Lei de Moisés. A terceira razão, contudo, era a mais importante.

Nós vemos o cenário todo assim:

Na sua primeira visita a Jerusalém após a sua conversão, o Senhor mandou-o claramente:

"Dá-te pressa e sai apressadamente de Jerusalém; porque não receberão o teu testemunho acerca de Mim" (At.22:18).

Naquela hora Paulo até debateu a questão com o Senhor. Estas pessoas, argumentou ele, sabiam como ele as tinha liderado na sua perseguição a Cristo; como ele tinha aprisionado e torturado em todas as sinagogas os que criam em Cristo e tinha consentido e ajudado no apedrejamento de Estêvão. Certamente eles o escutariam e o seu testemunho talvez pudesse levá-los a deixarem a sua inimizade contra Cristo e a confiarem Nele. Porém, o Senhor sabia mais, e respondeu sumariamente:

"Vai, porque hei de enviar-te aos gentios de longe" (At.22:21).

No entanto, apesar de ter sido enviado aos gentios com novas gloriosas, o coração do apóstolo continuava a sangrar pelo seu amado povo, que ele tinha levado a rebelar-se contra Cristo. Ele escreve sobre isto com grande emoção. Em Rm.9:1-3 ele fala da sua "grande tristeza e contínua dor" por causa da condição deles, e jura solenemente diante de Deus que se fosse possível desejaria ser, ele próprio, separado (grego: anathema) deles. Além disso, em Rm.10:1 ele diz fervorosamente que "o bom desejo do" seu "coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação".

Paulo não apenas tinha pena da obstinação dos seus parentes; ele sentia-se responsável por os ter conduzido, uns escassos anos atrás, na sua oposição a Cristo. Ele também se sentia responsável perante o Senhor por ter fomentado todo este ódio contra Ele.

Foi assim que mesmo apesar do Espírito Santo ter dado testemunho em todas as cidades de que cadeias e aflições o esperariam se ele subisse a Jerusalém, ele ainda se sentia impelido a ir "ligado... pelo espírito". De fato, pensava que precisava ir para consumar a carreira e ministério que lhe tinham sido atribuídos.

A declaração dos discípulos em Tiro certamente é o argumento mais forte dos que defendem que Paulo estava completamente errado e fora da vontade de Deus em ir. Estes discípulos tinham, evidentemente, o dom da profecia. "Eles pelo Espírito diziam a Paulo que não subisse a Jerusalém" (At.21:4).

Contudo, deve ser notado que a palavra grega para "não" aqui, não é a palavra grega "ou", mas "me". Trata-se de um não subjetivo e não objetivo, lidando com pensamentos e sentimentos e não com fatos, como "ou" faz. Enquanto "ou" nega ou impede uma coisa de forma direta e absoluta, "me" fá-lo segundo o juízo ou desejo. Assim, o grego aqui não indica uma proibição direta, mas um aviso e uma súplica.

Todavia, estes discípulos de Tiro não estavam preocupados meramente com o bem estar de Paulo; foi "pelo Espírito" que disseram a Paulo que não subisse a Jerusalém. Se At.21:4 se refere meramente a uma declaração profética, ou aos seus argumentos durante a visita de sete dias, não é certo.

O maior teste, provavelmente, veio quando o profeta, Ágabo, (3) de Cesaréia, num impressionante aviso dramático, predisse a captura e prisão de Paulo em Jerusalém, levando tanto os seus companheiros de viagem como os seus amigos de Cesaréia a rogarem-lhe, chorando, para não persistir no seu propósito (At.21:10-12).

Argumentar que os incidentes acima eram apenas para serem interpretados como um desafio pelo Espírito Santo para encorajar Paulo a ir a Jerusalém é certamente contrário ao que estas passagens dizem tão claramente. Porém, a natureza humana é complexa, e é evidente que ele não as considerou como condenatórias da sua ação, mas pelo contrário como testes à sua fidelidade (At.21:13; cf. 20:24).

Portanto, apesar de Paulo não ter sido divinamente conduzido a Jerusalém nesta ocasião, como pelo menos foi noutra (Gl.2:2), e de ter, de fato, sido avisado das cadeias e aflições que o aguardariam se fosse, ele foi, no entanto, num espírito de fidelidade ao seu Senhor, e – isto é importante – Deus usou-o para apresentar a Israel mais um apelo exaltado dos lábios daquele que tinha sido avisado para não ir a eles; daquele a quem tinha sido dito que eles não dariam ouvidos; que agora estava diante deles em cadeias, relatando a história da sua conversão, para ver se, porventura, isso podia conduzir à conversão deles.

Depois disto o apóstolo foi levado para Roma em cadeias para se tornar "o prisioneiro de Jesus Cristo" pelos gentios (Ef.3:1). Nós repetimos que as passagens que declaram isto não dizem que ele era prisioneiro por Cristo (ainda que isto seja verdadeiro). Não diz que ele era prisioneiro dos judeus ou dos romanos. Diz que era "o prisioneiro de Jesus Cristo POR vós, os gentios". Isto é, Jesus Cristo estava mantendo-o na prisão por amor dos gentios, não como punição, mas para o coração dele ser guardado de voltar-se para os seus patrícios segundo a carne; aqueles por cuja apostasia ele se sentia tão grandemente responsável.

(Partes desta seção são extraídas basicamente do livro do autor, Atos Dispensacionalmente Considerado, Vol. III, Pg. 230-241).

O MINISTÉRIO DE PAULO COMO PRISIONEIRO

É tocante notar que no registro daqui em diante não contém um único indício de qualquer rebelião da parte de Paulo ou de qualquer irritação dele pelo modo como Deus tratou com ele.

Pelo contrário, diante da multidão de judeus e do Sinédrio, ambos os quais interromperam os discursos dele devido ao mau temperamento deles, ele manteve o equilíbrio e comportou-se como um verdadeiro e grande homem de Deus.

A profecia de Ágabo já estava sendo cumprida, não no fato dos próprios judeus terem prendido Paulo, mas, como no caso do seu Senhor, fizeram com que ele fosse preso "com duas cadeias" (At.21:33). De fato, eram os judeus que agora insistiam, não meramente na sua prisão, mas na sua execução como criminoso merecedor de morte. "Mais de quarenta" deles "fizeram uma conspiração, e juraram, dizendo que não comeriam nem beberiam enquanto não matassem a Paulo" (At.23:12-13). Contudo, isto resultou em ele ser enviado para Cesaréia sob forte escolta a fim de ter uma audiência com o governador Félix.

Porém, o sumo sacerdote, Ananias, não perdeu tempo em processar o homem que o tinha chamado de "parede branqueada" (23:3), pois apenas cinco dias depois de Paulo ter partido de Jerusalém, ele e os anciãos judeus, juntamente com um orador chamado Tértulo, percorreram os 120 km que os separava de Cesaréia afim de processar Paulo (24:1). Todavia, as acusações deles não resultaram no veredicto imediato de Paulo. Em vez disso ele ficou em Cesaréia, sob prisão militar (4) por dois anos (At.24:27).

Félix esperava que Paulo, que tinha vindo a Jerusalém com grande quantidade de dinheiro, o subornasse, "Esperando ao mesmo tempo que Paulo lhe desse dinheiro, para que o soltasse" (At.24:26). Porém, não foi dado suborno algum e o registro informa-nos que,

"...passados dois anos, Félix (5) teve por sucessor a Pórcio Festo; e, querendo Félix comprazer aos judeus, deixou a Paulo preso" (v.27).

E Festo também queria "comprazer aos judeus", ao sugerir a Paulo que talvez devesse regressar a Jerusalém para mais uma audiência. Foi aqui que Paulo, reclamando os seus direitos de cidadania romana, apelou para César (At.25:9-12).

Assim, a nação de Israel é, em proporção crescente, deixada para trás no ministério do apóstolo e ele emerge cada vez mais proeminentemente como "o apóstolo dos gentios".

Foi durante os poucos dias em que Paulo aguardava ser levado para César em Roma, que o Rei Herodes Agripa II, superior de Festo, surgiu em cena e expressou o desejo de ouvir o próprio Paulo. É nesta audição que o estado de espírito recheado de gratidão e de felicidade de Paulo resplandece mais.

As palavras de abertura de Festo, "aqui vedes um homem" emprestam uma característica comovente à cena. Eis ali o grande apóstolo, evidentemente um homem com alguns recursos nesta época (6) e certamente alguém que deveria ter sido objeto das mais altas honras em vez de acusado de crimes. Ali estava ele, um prisioneiro em cadeias, diante de todos estes dignitários: Agripa e Berenice, Festo o governador, o tribuno e os principais homens da cidade, o Sumo sacerdote, Tértulo e os anciãos dos judeus (24:1, 25:23-24).

Daquilo escrito acima e das palavras de Paulo em At.26:29, parece que a sala do tribunal estava repleta de ouvintes interessados na audiência, além das pessoas importantes acima mencionadas.

A defesa de Paulo foi interrompida por duas vezes: primeiro por Festo que, evidentemente muito perturbado, disse "em alta voz":

"Estás louco, Paulo; as muitas letras te fazem delirar" (26:24).

Aqui, Paulo, plenamente sereno, respondeu com cortesia:

"Não deliro, ó potentíssimo Festo; antes digo palavras de verdade e de um são juízo" (v.25).

Ele percebeu que Festo estava provavelmente tentando encobrir os seus sentimentos de convicção com esta declaração explosiva. Assim, referindo-se de imediato ao rei, explica a Festo que o Rei Agripa tem conhecimento de todas estas coisas; que pode falar à vontade diante dele e que está convencido de que os detalhes do seu caso não foram escondidos dele, visto não foram feitos "em qualquer canto" (26:26)

O apóstolo sabia que Agripa não apenas tinha sido criado na religião judaica, mas também estava intimamente ligado politicamente a Israel.

E agora ele diz algo, mais para convencer Festo do que para se defender. Voltando-se a dirigir pessoalmente a Agripa, ele pergunta: "Crês tu nos profetas, ó rei Agripa?" e acrescenta logo a seguir, "Bem sei que crês" (26:27). Ao recusar esperar pela resposta de Agripa à sua pergunta o apóstolo fez de novo o que era apropriado e sábio. Paulo, não Agripa, é que estava sendo julgado e colocar o rei numa posição embaraçosa somente o irritaria. Assim, usando discernimento admirável o apóstolo apela indiretamente ao próprio Agripa, utilizando-o como sua testemunha, e ao mesmo tempo enfatizando a verdade de seu argumento. Foi isto que produziu a segunda interrupção – por Agripa – quando ele diz a Paulo:

"Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!" (v.28).

Qualquer que tenha sido o grau de sinceridade de Agripa nesta matéria, se ele também procurou encobrir a profundidade dos seus sentimentos ao falar ironicamente, ou se ele pretendia, na verdade, expressar a sua verdadeira convicção, Paulo foi rápido em tirar vantagem da situação. Revelando o peso que lhe ia na alma, não apenas por Agripa, mas por Festo e todos os presentes, Paulo retorquiu com enorme sentimento:

"Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito, não somente tu, mas também todos quantos hoje me estão ouvindo, se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias" (v.29).

Estas palavras parecem ser de alguém que estava infeliz com a forma de Deus lidar com ele? Que grande servo de Deus era o apóstolo! Que profundidade no seu zelo: "Prouvera a Deus". Que coração grande: "não somente tu, mas também todos quantos hoje me estão ouvindo". Que falta de interesse próprio: ele está em cadeias, mas almejando pela salvação deles. Quão gloriosamente triunfante: "Desejo que vós – todos vós – fossem como eu". Quão poderosa a sua súplica: "Por pouco" não é o suficiente. Precisa ser "tais qual eu sou", isto é, inteiramente.

E o toque mais primoroso da cortesia e graça cristã encontra-se nas suas palavras: "exceto estas cadeias". Ele tinha sofrido muito por Cristo, porém ele não disse, "Desejo que vós pudésseis sentir o peso destas cadeias". Ele não desejava nada daquilo para eles. Ele apenas desejava que eles experimentassem a paz e a certeza e gozo que enchiam o seu coração. Nós também imaginamos que ele pode ter acrescentado esta última frase com um brilho nos olhos, porque indicou que estava são!

A CONFIRMAÇÃO DA REJEIÇÃO DE CRISTO POR ISRAEL

Ao chegar em Roma, "o centurião entregou os presos ao capitão da guarda; mas a Paulo se lhe permitiu morar por sua conta à parte, com o soldado que o guardava" (At.28:16). Assim, por "dois anos inteiros" Paulo habitou "na sua própria habitação [sempre guardado por um soldado] que alugara" (v.30).

E ele próprio convidou o primeiro grupo de visitantes. Chamando "os principais dos judeus" concordaram numa data em que pudessem debater mais plenamente a sua situação e a sua mensagem. Lemos que "muitos foram ter com ele" para este debate e que o apóstolo lhes deu "bom testemunho" e procurou "persuadi-los" a respeito de Jesus "desde a manhã até à tarde" (v.23).

Foi nesta época que foi tornado completamente claro – para Paulo – que Israel e a sua esperança do reino tinham, momentaneamente, sido postas de lado. Ele tinha até então viajado de Jerusalém a Roma, indo, com consistência, "primeiro ao judeu", mas invariavelmente com os mesmos resultados.

Deve ser notado que em cada uma das crises em que Paulo se voltou dos judeus para os gentios, foi tornado claro que os próprios judeus estavam reprovando a si mesmos visto que recusarem-se aceitar o Messias e o cumprimento das promessas.

Em Jerusalém o próprio Senhor tinha aparecido a Paulo, dizendo:

"Dá-te pressa e sai apressadamente de Jerusalém; porque não receberão o teu testemunho acerca de mim" (At.22:18).

Em Antioquia da Pisídia o apóstolo tinha dito aos judeus a respeito da Palavra de Deus para com eles:

"...Visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna..." (At.13:46).

Em Corinto, depois deles se terem colocado em oposição e de terem blasfemado:

"O vosso sangue seja sobre a vossa cabeça; eu estou limpo" (At.18:6).

E agora em Roma é o mesmo, só que a sua resposta é mais forte e final. "E, como ficaram entre si discordes, despediram-se", mas antes deles terem deixado de fato que Paulo pronunciasse sobre eles esta acusação severa:

"E, como ficaram entre si discordes, despediram-se, dizendo Paulo esta palavra: Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías,
"Dizendo: Vai a este povo, e diz: De ouvido ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis; E, vendo vereis, e de maneira nenhuma percebereis.
"Porquanto o coração deste povo está endurecido, E com os ouvidos ouviram pesadamente, E fecharam os olhos, Para que nunca com os olhos vejam, Nem com os ouvidos ouçam, Nem do coração entendam, E se convertam, E eu os cure.
"Seja-vos, pois, notório que esta salvação de Deus é enviada aos gentios, e eles a ouvirão" (At.28:25-28).

Ao longo de todo o caminho Deus tinha mostrado ao apóstolo que a nação tinha sido posta de lado, mas agora depois de toda esta evidência e com a paciência quase exausta pela sua enorme disputa com o preconceito e a incredulidade, que outra dúvida poderia haver?

O seu próprio chamamento como apóstolo depois do apedrejamento de Estêvão só podia significar a introdução duma nova dispensação. O nosso Senhor tinha doze apóstolos para reinar com Ele sobre as doze tribos de Israel.

Depois, como vimos, no seu regresso a Jerusalém após a sua conversão o Senhor declarou-lhe enfaticamente: "não receberão o teu testemunho acerca de mim".

Mais tarde, aos tessalonicenses, onde a oposição judaica era tão intensa, o próprio apóstolo tinha escrito, "a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim" (I Ts.2:15-16).

E agora, com todo este testemunho sobrenatural, com toda esta evidência da atitude de Israel durante todo o caminho desde Jerusalém até Roma, como ele podia deixar de decidir esta questão na sua própria mente, embora seu coração ainda deve ter se dilatado pelos seus parentes rebeldes? Agora, da forma mais decisiva, ele será "o apóstolo dos gentios". Tinha sido fácil escrever isto aos romanos, mas era muito mais difícil aceitá-lo como fato consumado uma vez que era sobre o bem estar dos seus próprios patrícios.

É uma pena que alguns, ao lerem como na sua própria casa em Roma o apóstolo pregava "o reino de Deus", tenham interpretado que isto significava que ele proclamava o "evangelho" do reino ou o seu estabelecimento terreno. Como isto é errado! Naturalmente ele ter-lhes-á dito o que tinha acontecido ao reino. Ele ter-lhes-á explicado como o estabelecimento deste reino, proclamado por João Batista, Cristo e os doze, estava agora suspenso. Ele ter-lhes-á dito como o povo de Israel tinha rejeitado o Rei e o Seu reino e como o reino estava agora investido em Cristo no céu – pois Ele é o Rei legítimo. (Ver Cl.1:13).

AS EPÍSTOLAS DE PRISÃO

Mais tarde, numa masmorra no palácio de Nero o apóstolo teve uma razão maior para aceitar a sua prisão como a vontade graciosa de Deus para com ele – e para com os gentios. Ele escreve aos crentes filipenses:

"...quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do evangelho;
"De maneira que as minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana, e por todos os demais lugares" (Fp.1:12-13).

Ele está tão feliz no Senhor que está cheio de encorajamento para os crentes filipenses. Escutemos este prisioneiro romano:

"Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo,
"Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas" (Fp.3:20-21).
"Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos" (Fp.4:4).
"Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças.
"E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus" (4:6-7).

Eis um prisioneiro feliz! Talvez a maior razão é que ele compreende claramente porque está preso.

Cinco vezes nestas epístolas ele autodenomina-se de "o prisioneiro de Jesus Cristo" e em Ef.3:1-8 ele autodenomina-se "o prisioneiro de Jesus Cristo por vós os gentios" e entra em detalhes explicando o porquê.

Ele não podia viajar mais pelas igrejas, ou sair para estabelecer novas, no entanto, atentemos para os testemunhos constantes que foram proferidos da prisão. Desencorajado? Longe disso! Este habitante de uma prisão romana cruel e vil, escreve sobre estar sentado "nos lugares celestiais, em Cristo Jesus" (Ef.2:4-7). Ele irrompe numa doxologia a Deus, "que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo" (1:3). Ele declara que é do propósito de Deus,

"Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus" (2:7).

Quão grande é o poder redentor de Cristo! Que mudança operou no homem que antes respirava "ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor"! Agora ele respira doxologias de louvor e gozo, mesmo sentado na prisão.

E nós, que conseguimos entender um pouco do "mistério" pelo qual Paulo viveu e morreu para o tornar conhecido, continuaremos sempre descobrindo novas jóias preciosas de bênção nos escritos do "prisioneiro de Jesus Cristo por vós os gentios".

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