PAULO E OS SEUS ANTECESSORESUM ESTUDO DOS ASPECTOS MAIS ABRANGENTES
DA SUA MENSAGEM E MINISTÉRIOPara o crente imparcial na Palavra de Deus há provas esmagadoras de que o segredo do propósito eterno e graça de Deus foi comunicado primeiro por revelação ao Apóstolo Paulo, para, por sua vez, ele tornar conhecido aos outros.
Paulo não somente declara isto por inspiração divina, como as suas declarações são amplamente confirmadas ao compararmos a sua mensagem e ministério com as mensagens e ministérios de todos os seus antecessores.
Mas apesar das distinções particulares terem muitas vezes sido notadas nesta relação, sentimos que muito pouca atenção tem sido dada aos aspectos mais amplos da sua mensagem e ministério quando comparados com os dos seus antecessores. Aquelas grandes, maravilhosas verdades que ele foi comissionado a revelar foram o tema constante do seu discurso e cartas e a sua conduta e vida estavam em harmonia perfeita com estas verdades e com a dispensação que ele introduziu.
A DISPENSAÇÃO DA GRAÇA
Comecemos com a dispensação, ou o dispensar da graça.
Por vezes perguntam-nos: "Os outros antes de Paulo não falaram da graça?"
Sim, os outros antes de Paulo falaram da graça, mas antes de presumirmos demais disto consideremos alguns fatos básicos:
Não é meramente Paulo, mas a Palavra inspirada que declara que "a dispensação da graça de Deus" foi confiada a ele (Ef.3:2) e que este foi o seu ministério recebido "do Senhor Jesus" para tornar conhecido "o evangelho da graça de Deus" (At.20:24). ESTA DECLARAÇÃO NÃO FOI FEITA POR NENHUM DOS SEUS ANTECESSORES e nenhum deles sequer mencionou a dispensação ou o evangelho da graça de Deus, tanto quanto está registrado.
Para o crente esta evidência deveria ser conclusiva. Paulo foi o vaso escolhido de Deus, levantado especialmente para proclamar a mensagem e o programa da graça.
Mas para os que hesitam em aceitar estas declarações inspiradas no seu valor nominal temos evidência importante adicional a oferecer no fato de que NENHUM OUTRO ESCRITOR DA BÍBLIA – NEM MESMO TODOS OS OUTROS ESCRITORES DA BÍBLIA JUNTOS – TEREM TANTO PARA DIZER SOBRE A GRAÇA.
A palavra hebraica equivalente que Paulo usa para graça encontra-se apenas 68 vezes em todo o Velho Testamento (que é quase doze vezes o tamanho das epístolas de Paulo incluindo hebreus) e nem sempre está relacionada com a graça de Deus e nunca com "a dispensação da graça de Deus".
Nos "Quatro Evangelhos" (quase duas vezes o tamanho das epístolas de Paulo) a palavra graça (grego: charis), com os seus derivados, aparece no original apenas 13 vezes (muitas vezes bem menos em algumas traduções) e depois raramente numa relação doutrinal, muito menos dispensacional.
Comparativamente, as epístolas de Paulo, apenas um duodécimo do tamanho do Velho Testamento e metade do tamanho dos "Quatro Evangelhos", emprega a palavra graça e os seus derivados nada menos do que 144 vezes, muito mais vezes do que todo o resto da Bíblia junto, mais do que duas vezes todo o Velho Testamento (12 vezes o seu tamanho) e cerca de 11 vezes mais que os "Quatro Evangelhos" (duas vezes o seu tamanho). Além disso, nas epístolas de Paulo a palavra graça é usada quase sempre doutrinalmente, em relação com "a dispensação da graça de Deus".
Todas as epístolas assinadas com o nome de Paulo começam com uma proclamação de "graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo". Nas suas epístolas descobrimos que somos "justificados gratuitamente pela Sua [de Deus] graça" (Rm.3:24), que "onde o pecado abundou, superabundou a graça" (Rm.5:20), para que "a graça reinasse" (Rm.5:21). Lemos ali que não estamos "debaixo da lei, mas debaixo da graça" (Rm.6:14), que "Deus é poderoso para fazer abundar... toda a graça" para conosco, a fim de podermos abundar "em toda a boa obra" (II Co.9:8), que é propósito de Deus para os "séculos vindouros" mostrar "as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus" (Ef.2:7). E poderíamos continuar, somando a evidência que "a dispensação da graça de Deus" foi de fato confiada particularmente a Paulo para torná-la conhecida a nós.
Um exame do livro de Atos revelará uma comparação semelhante. Ali a palavra graça é encontrada, no original, quatro vezes antes do levantamento de Paulo e doze vezes depois. Antes do levantamento de Paulo não é usada uma única vez em relação à dispensação da graça ou à salvação pela graça, mas na segunda metade de Atos, após a sua conversão, a palavra não apenas é usada mais vezes, como aparece imediatamente relacionada com a dispensação da graça.
Quando Barnabé "viu a graça de Deus" salvando gentios em Antioquia da Síria, "se alegrou" (At.11:23). Quando os religiosos judeus e prosélitos em Antioquia da Pisídia receberam a proclamação de Paulo acerca da salvação por meio de Cristo sem a Lei, ele e Barnabé "os exortavam a que permanecessem na graça de Deus" (13:38-39,43). Em Icônio, Paulo e Barnabé deram testemunho ousado da "Palavra da sua graça" (14:3). Mais tarde Pedro confirmou a mensagem de Paulo, ao declarar publicamente a sua convicção: "Cremos que [nós, judeus] seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo, como eles [gentios] também" (15:11). Em Éfeso Apolo "aproveitou muito aos que pela graça criam" (18:27). No seu caminho para Jerusalém Paulo afirmou a sua determinação em cumprir a comissão que Cristo lhe deu, "para dar testemunho do evangelho da graça de Deus" (20:24) e depois recomendou os anciãos em Éfeso "à palavra da Sua graça" (20:32).
A PREGAÇÃO DA CRUZ
Consideremos a apresentação que Paulo faz da morte do Senhor Jesus Cristo.
Foi novamente por revelação divina que o Apóstolo exclamou que a sua pregação era "a pregação da cruz", isto é, como boas novas, e que o tema da sua mensagem era "Cristo crucificado" (I Co.1:18,23). ESTA DECLARAÇÃO NÃO FOI FEITA POR NENHUM DOS SEUS ANTECESSORES. Além disso, esta declaração também é amplamente confirmada pela comparação dos seus escritos com os dos seus antecessores.
Nas Escrituras do Velho Testamento as predições da morte de nosso Senhor, de Gn.3:15 em diante, são propositadamente deixadas na obscuridade e é-nos dito explicitamente que apesar dos próprios profetas terem investigado com diligência, não descobriram nem a "ocasião de tempo" e muito menos o que "o Espírito... indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir" (I Pe.1:10-12).
O mesmo se passa com os tipos da morte de nosso Senhor no Velho Testamento. Agora podemos olhar retrospectivamente para eles e exclamar que "Deus teve isto em mente o tempo todo!", mas não nos é apresentado um único exemplo onde os daquela época se informaram, ou que compreendiam, que a morte de Cristo estava sendo prefigurada.
Depois, quando o nosso Senhor apareceu na terra Ele nem sequer começou a dizer aos Seus apóstolos que Ele tinha que sofrer e morrer senão próximo do fim do Seu ministério (Mt.16:21; Mc.8:31; Lc.9:22), e com este resultado:
"E Pedro, tomando-O de parte, começou a repreendê-Lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso" (Mt.16:22).
Os próprios apóstolos de nosso Senhor ignoravam tanto o fato profético da Sua morte (e muito menos o significado dela) que mais tarde, à própria sombra da cruz, quando Ele lhes disse de novo como tinha que sofrer e morrer e ressuscitar, eles ainda estavam confusos.
"E eles nada disto entendiam, e esta palavra lhes era encoberta, não percebendo o que se lhes dizia" (Lc.18:34).
De fato, até mesmo em Pentecostes, quando a morte de Cristo já se tinha tornado num fato histórico, a totalidade de seus méritos ainda não tinha sido compreendido.
Nos primeiros capítulos de Atos nós ainda não encontramos a morte da cruz proclamada para a salvação. Pelo contrário, é referida como motivo de vergonha e de arrependimento. Pedro não oferece aos seus ouvintes o sangue derramado de Cristo para a remissão dos seus pecados. Ele acusa-os pelo derramamento daquele sangue e exige o arrependimento e o batismo para o perdão dos pecados.
Porém, com o levantamento de Paulo tudo isto se altera. A crucificação assume um novo significado maravilhoso. A cruz, o sangue, a morte de Cristo tornam-se no próprio tema da sua mensagem. Ele fala disso constantemente, não em significados camuflados, mas em declarações abertas, como boas novas (notícias), como aquilo à volta do qual o propósito eterno de Deus se volve e do qual toda a nossa bênção procede.
NENHUM OUTRO ESCRITOR DA BÍBLIA TEM TANTO A DIZER ACERCA DA MORTE DE CRISTO.
O Apóstolo diz-nos pela inspiração do Espírito que:
Quando estávamos ainda sem força (fracos), Cristo morreu a Seu tempo pelos ímpios (Rm.5:6).
Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores (Rm.5:8).
Fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, quando éramos inimigos (Rm.5:10).
Somos salvos por meio da fé no Seu sangue (Rm.3:25).
Temos a redenção através do Seu sangue (Ef.1:7).
Somos justificados pelo Seu sangue (Rm.5:9).
Somos reconciliados com Deus no corpo da Sua carne, pela morte (Cl.1:21-22).
Temos paz pelo sangue da Sua cruz (Cl.1:20).
Chegamos perto pelo sangue de Cristo (Ef.2:13).
Fomos batizados na Sua morte (Rm.6:3).
Fomos unidos em um corpo pela cruz (Ef.2:16).
O Concerto da Lei foi cravado na cruz (Cl.2:14).
Ele morreu para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou (II Co.5:15).
Ele morreu para que quer vigiemos, quer durmamos, vivamos juntamente com Ele (I Ts.5:10).
Cristo crucificado é o poder de Deus e a sabedoria de Deus (I Co.1:23-24).
Devemos gloriar apenas na cruz (Gl.6:14).
Nós anunciamos a morte do Senhor [à Sua Ceia] até que Ele venha (I Co.11:26).
Em vista ao exposto acima – e muito mais – não é de se admirar que a mensagem de Paulo se chame "a pregação da cruz".
O ANDAR DO CRENTE
Uma vez mais, com respeito à questão abrangente da vida e conduta do crente espiritual: NENHUM OUTRO ESCRITOR BÍBLICO DEDICA UMA PROPORÇÃO TÃO EXTENSA DOS SEUS ENSINOS À QUESTÃO DO ANDAR DO CRENTE.
Moisés tinha muito a dizer sobre amar a Deus e da obediência aos Seus mandamentos, mas tornou-se evidente que a Lei Mosaica não produziria resultados, quando Deus a pronunciou "velha" (1) e prometeu fazer um novo concerto com o Seu povo, sob o qual Ele operaria no interior deles para que espontaneamente fizessem a Sua vontade (Jr.1:31-34; Ez.36:26-27; notemos a expressão "farei que").
Em Pentecostes houve um antegosto desta bênção do reino quando o Espírito Santo fez com que os discípulos de Cristo profetizassem e também fez com que fizessem a Sua vontade, de acordo com a Sua promessa.
Por esta razão não encontrarmos nos primeiros capítulos de Atos os apóstolos e os discípulos cometendo pecados e cometendo erros. Eles estavam todos CHEIOS do Espírito (At.2:4), completamente sob o Seu controlo.
Deus demonstrou, assim, o fato de que a única forma de os Seus poderem obedecer-Lhe perfeitamente é quando Ele toma possessão deles e faz com que façam a Sua vontade.
Contudo, como sabemos, Israel rejeitou o Rei e o Seu reino e essa operação do Espírito Santo cessou. Hoje Ele não toma mais a posse de homens, fazendo com que eles, sobrenaturalmente, ou profetizem, ou falem línguas, ou ainda façam a Sua vontade.
Mas Paulo foi levantado na graça de Deus para mostrar como, mesmo neste "presente século mau" nós podemos ter vitória espiritual pela graça por meio da fé, pois apesar do Espírito não fazer com que façamos a vontade de Deus automaticamente, Ele habita no interior do crente, sempre pronto para ajudar, e, assim, o que é providenciado pela graça podemos apropriar por meio da fé. Que desafio!
É por isto que o apóstolo tem tanto a dizer sobre a operação do Espírito agora e sobre a nossa vida e conduta espiritual agora nesta época da rejeição de Cristo. É por causa disto que as doutrinas em cada uma das suas grandes epístolas às igrejas são seguidas de aplicações práticas ao nosso comportamento neste "presente século mau".
Que quantidade de escritos de Paulo poderíamos citar em apoio destes fatos! O que se segue são apenas algumas passagens representativas:
"...Considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.
"Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscência;
"Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.
"Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça" (Rm.6:11-14).
"Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte" (Rm.8:2).
"E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita.
"De maneira que, irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne" (Rm.8:11-12).
"Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?
"Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus" (I Co.6:19-20).
"Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados,
"Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor,
"Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz" (Ef.4:1-3).Muito mais poderia ser acrescentado a tudo isto para mostrar como ninguém antes de Paulo proclamou as verdades da santificação prática do crente por crer na apropriação da operação do Espírito Santo na sua vida, como fez Paulo. Como toda esta evidência acumulada distingue Paulo como o único especialmente levantado por Deus para tornar conhecidas as verdades particulares para a presente dispensação!
Mas ainda há mais evidências de outra natureza.
OS JURAMENTOS DE PAULO
Quantas vezes o apóstolo fala com um juramento!
"Deus... me é testemunha" (Rm.1:9).
"Em Cristo digo a verdade, não minto..." (Rm.9:1).
"Invoco, porém, a Deus por testemunha sobre a minha alma..." (II Co.1:23).
"Como a verdade de Cristo está em mim..." (II Co.11:10).
"O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é eternamente bendito, sabe que não minto" (II Co.11:31).
"...eis que diante de Deus testifico que não minto" (Gl.1:20).
"Deus me é testemunha" (Fp.1:8).
"...digo a verdade em Cristo, não minto..." (I Tm.2:7).
"Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo..." (I Tm.5:21).
"Mando-te diante de Deus..." (I Tm. 6.13).
"Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo..." (II Tm.4:1).Como diz Dean Howson: "Quando [Paulo] faz uma declaração solene sob a consciência da presença de Deus, ele não hesita em expressar isto" (Hulsean Lectures for 1862, Pg.160). (2)
Mas outros escritores não tinham falado sob a consciência da presença de Deus? Na verdade, Pedro, pelo Espírito, diz, "Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus" (I Pe.4:11). No entanto, mesmo uma leitura superficial das Escrituras revelará que PAULO INVOCA DEUS PARA TESTEMUNHAR MUITAS VEZES MAIS DO QUE QUALQUER OUTRO ESCRITOR DA BÍBLIA e na sua maioria a respeito da sua integridade pessoal. Porquê isto? Porque ele necessitou falar com um juramento?
A resposta a esta questão é, de novo, encontrada no caráter distinto do ministério do Apóstolo como revelador do mistério.
João Batista não necessitava falar com juramentos porque ele proclamou o reino que já tinha sido predito por todos os profetas do Velho Testamento. Os quatro "evangelistas" não necessitavam falar com juramentos porque apresentaram o nosso Senhor como o Messias profetizado. Pedro, em Pentecostes, podia salientar que "isto" era "o que foi dito pelo profeta Joel" (At.2:16); porque ele haveria de jurar que estava dizendo a verdade? Além disso, tanto ele como os seus associados estavam todos, evidentemente, sob o controlo do Espírito Santo (At.2:4).
Porém, com Paulo era um caso diferente. Separado dos doze, que eram amplamente conhecidos como apóstolos de Cristo, Paulo tinha sido levantado para tornar conhecido um maravilhoso segredo que Deus tinha mantido oculto de todos os que até esta hora tinham vivido. Apesar de não ser, de forma alguma, uma contradição da profecia, este segredo não se encontrava, no entanto, nos dizeres ou escritos de qualquer um que o tinha precedido. Além disso, a revelação de "este mistério" trazia com ele uma mudança revolucionária na mensagem e no programa – uma nova dispensação. Assim, é apropriado que Paulo insista repetidas vezes que escreve como na presença de Deus.
A CONSCIÊNCIA DE PAULO
Na mesma base o Apóstolo estava intensamente ciente da consciência e ensinou outros a estarem também. De fato, mais uma vez, PAULO TEM MAIS A DIZER SOBRE A CONSCIÊNCIA DO QUE QUALQUER OUTRO ESCRITOR DA BÍBLIA.
Já vimos como em Rm.9.1 ele jura no nome de Cristo que não está mentindo, mas acrescenta:
"...dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo".
Em At.2:31 encontramo-lo "pondo... os olhos no conselho", e dizendo:
"Homens irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de Deus com toda a boa consciência" (Ver também II Tm.1:3).
Ele até tinha sido consciencioso (embora conscientemente errado) na sua perseguição a Cristo (At.26:9) e embora seja claro que ele não foi salvo pela obediência à sua consciência, esta característica da sua maneira de ser tornou-se mais fortemente marcada após a sua regeneração e iluminação pelo Espírito Santo.
A Félix ele podia dizer:
"E por isso procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens" (At.24:26).
Aos coríntios podia escrever:
"Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria carnal, mas na graça de Deus, temos vivido no mundo, e de modo particular convosco" (II Co.1:12).
E isto é representativo de muitas passagens semelhantes:
Ademais ele apela às consciências dos outros:
"...não andando com astúcia nem falsificando a palavra de Deus; e assim nos recomendamos à consciência de todo o homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade" (II Co.4:2).
Timóteo foi exortado a guardar a fé "e a boa consciência" (I Tm.1:19) e foi lembrado que os diáconos devem guardar "o mistério da fé numa consciência pura" (I Tm.3:9).
Ao tratar das relações dos crentes uns com os outros o Apóstolo roga-lhes que sejam sensíveis não apenas à sua própria consciência mas também às dos outros (I Co.8:7-12; 10:25-29).
É importante notar que o Apóstolo não só mostrou que tinha, como exortou que houvesse consciência, especialmente no que se refere à questões financeiras. Ele não somente exortou os outros a procurar "as coisas honestas, perante todos os homens" (Rm.12:17), como ele próprio praticou isto. Em relação às grandes contribuições sendo feitas pelas igrejas dos gentios para os santos em Jerusalém, ele escreveu aos coríntios para que juntamente com Tito (enviado para recolher a contribuição deles) fosse enviado outro irmão que fosse bem conhecido de todas as igrejas e designado por eles, para viajar com ele no transporte da oferta para Jerusalém:
"Evitando isto, que alguém nos vitupere por esta abundância, que por nós é ministrada;
"Pois zelamos do que é honesto, não só diante do Senhor, mas também diante dos homens" (II Co.8:20-21).Na verdade, ele já lhes tinha escrito:
" E, quando tiver chegado, mandarei os que por cartas aprovardes, para levar a vossa dádiva a Jerusalém.
"E, se valer a pena que eu também vá, irão comigo" (I Co.16:3-4).Isto tudo não indica que o programa do reino tinha sido interrompido e a dispensação da graça introduzida?
Não teria havido necessidade de tais preocupações e exortações, ou mesmo de tais coletas, se o programa Pentecostal tivesse continuado ininterrupto, pois então,
"Era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns... Não havia, pois, entre eles necessitado algum..." (At.4:32-34).
Sob tais condições controladas pelo Espírito seria desnecessário acautelar alguém a respeito da consciência de outrem. Eles viviam todos uns para os outros. Nem haveria necessidade de exortá-los para terem cuidado com as suas próprias consciências. Eles estavam todos cheios do Espírito Santo. De fato, dois que procuraram juntar-se ao grupo por meios que menosprezavam a consciência foram fulminados com morte (At.5:1-11). Teria sido, semelhantemente, desnecessário exortar Pedro e os seus irmãos para guardarem a verdade numa consciência pura pois, cheios do Espírito, eles falavam "conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem" (At.2:4).
Mas as manifestações sobrenaturais de Pentecostes foram suspensas há muito e nós agora vivemos sob a dispensação da graça. Por conseguinte, é supremamente apropriado que o nosso apóstolo tenha tanto que dizer sobre a consciência, exortando-nos sempre para mantermos a integridade pessoal e demonstrarmos a devida consideração pelo bem-estar espiritual dos outros, produzindo assim os frutos da graça.
OS SOFRIMENTOS DE PAULO
Em conclusão consideremos mais uma característica em que Paulo se distingue de todos os seus antecessores: os seus sofrimentos.
Todos reconhecem que nenhum sofrimento, meramente humano, se pode comparar com os sofrimentos do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Ele suportou o juízo que lançaria o mundo inteiro no inferno. Mas entre os homens mortais no serviço de Deus certamente ninguém sofreu mais do que Paulo. Tanto quanto está registrado, PAULO SOFREU MAIS POR CRISTO QUE QUALQUER DOS SEUS ANTECESSORES.
Temos pelo menos um indício inspirado disto no registro das palavras de nosso Senhor a respeito de Saulo:
"...Eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome" (At.9:16).
Mas uma vez mais, este fato é mais amplamente confirmado através da comparação do registro dos sofrimentos de Paulo com o dos sofrimentos dos seus antecessores.
Como podemos começar a citar tudo por que ele passou, desde a sua fuga sobre o muro de Damasco (At.9:23-25) até àquelas horas de espera na prisão romana aguardando a sua execução como criminoso (II Tm.4:6)? Basta dizer que mesmo na altura que escreveu duas das suas primeiras epístolas, as que escreveu aos coríntios, ele já tinha superado outros nas perseguições e sofrimentos que padeceu por Cristo. Ao escrever aos coríntios ele diz de si mesmo e dos seus companheiros:
"...somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos, e aos homens.
"Nós somos loucos por amor de Cristo... nós fracos... e nós vis.
"Até esta presente hora sofremos fome, e sede, e estamos nus, e recebemos bofetadas, e não temos pousada certa,
"E nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos. Somos injuriados, e bendizemos; somos perseguidos, e sofremos;
"Somos blasfemados, e rogamos; até ao presente temos chegado a ser como o lixo deste mundo, e como a escória de todos" (I Co.4:9-13).Que este "nós" se refere sobretudo a ele mesmo torna-se claro da longa lista detalhada que nos é dada em II Co.11:23-33 relativa a todos os sofrimentos que ele tinha sofrido pessoalmente até essa hora. Esta lista é sempre lida muito rapidamente. Meditemos um pouco nos detalhes: os açoites, os castigos, o apedrejamento, os naufrágios, as viagens extenuantes, os perigos de enchentes, salteadores, judeus, gentios, os perigos na cidade, no deserto, no mar, entre falsos irmãos, a fadiga, a dor, as vigílias, a fome, o frio, a nudez, e depois, "Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas" – um pouco de meditação em cada um destes detalhes particulares na sua vida de perseguição e sofrimento explicará logo porque ele exclamou:
"São [eles] ministros de Cristo? (falo como fora de mim) eu ainda mais: em trabalhos, muito mais; em açoites, mais do que eles; em prisões, muito mais; em perigo de morte, muitas vezes... Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu me não abrase?" (II Co.11:23-29).
É claro que esta visão é parcial, mas para revelarmos o aspecto mais cintilante dos sofrimentos do Apóstolo temos que primeiro saber porque ele sofreu tudo isto.
Não nos devemos esquecer que ele tinha liderado Israel e o mundo na rebelião contra o Filho de Deus. Como líder inflamado desta rebelião ele tinha assolado "a igreja" (At.8:3), tinha-a "sobremaneira" perseguido e assolado (Gl.1:13), tendo manchado as suas mãos com o sangue dos mártires.
Nisto ele não deixou de representar a atitude do mundo para com Cristo, porém quando o mundo estava pronto para o juízo profetizado, o tempo da ira de Deus, Deus interveio graciosamente, salvando, em vez de julgar, Saulo de Tarso e enviando-o com a oferta da reconciliação aos Seus inimigos por graça através da fé.
Naturalmente, Saulo, como embaixador da graça entre inimigos alienados, teria agora de suportar os mesmos sofrimentos que tinha infligido aos outros. Contudo, este sofrimento constante foi, num verdadeiro sentido, "as aflições de Cristo", a conseqüência continuada da inimizade do mundo contra Deus e o Seu Cristo. Isto explica uma passagem difícil na sua carta aos colossenses:
"Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja" (Cl.1:24).
Tais sofrimentos são doces! Não é de se admirar que o apóstolo regozijava neles uma vez que o levavam a uma comunhão mais íntima com o próprio Cristo rejeitado. Não é de se admirar que era o seu profundo desejo de:
"Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação [comunhão] de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte" (Fp.3:10).
Assim, mesmo nos seus sofrimentos, Paulo destaca-se como o apóstolo da graça de Deus, escolhido para proclamar o amor do Cristo rejeitado a um mundo condenado.
É somente quando reconhecemos estas distinções bíblicas entre Paulo e todos os seus antecessores que estaremos capacitados para proclamar o evangelho da graça de Deus com clareza e poder, sendo o único modo de nos podermos tornar obreiros que podem ser aprovados por Ele (II Tm.2:15).
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