DUAS VEZES EM QUE O SENHOR PERGUNTOU PORQUÊA CHAVE DO CÉU
Os dois maiores enigmas do universo e da história da humanidade estão expressos em duas questões colocadas pelo Senhor – nas duas ocasiões principais em que Ele, que "conhece todas as coisas", perguntou "Porquê?".
Uma das vezes foi a Deus que bradou "Porquê" e a outra a Saulo de Tarso; uma ao Santo e a outra ao principal dos pecadores. Uma vez bradou "Porquê" da vergonhosa cruz e a outra da Sua glória no céu. Em cada um dos casos foi repetido o nome da pessoa a quem a pergunta se dirigia.
Em Mt.27:46 encontramos o primeiro angustioso "porquê?" emanado do fundo do Seu coração e dos Seus lábios quando Ele bradou da cruz cruel, "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?" O outro encontra-se em At.9:4, onde lemos como Ele bradou do Seu trono no céu, "Saulo, Saulo, porque me persegues?"
"Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?"
"Saulo, Saulo, porque me persegues?"Estas duas questões representam os maiores enigmas da história e apesar disso, de forma estranha, uma é a explicação simples da outra! Uma complementa a outra.
Porque é que Deus abandonou o Seu amado Filho? Porque é que Ele permitiu que homens iníquos ultrajassem e crucificassem o Cristo sem pecado, inofensivo? Só descobrirá a resposta quando perguntar porque a humanidade (representada por Saulo) odiou Cristo e O perseguiu até à morte. A ação de Deus foi o único antídoto para a do homem. A morte de Cristo foi o único remédio para o pecado do homem. Foi por causa da total falta de razão do pecado do homem, que um Deus gracioso, para o salvar, teve de ser mais que razoável.
Que "Cristo morreu" é um fato histórico que todo mundo conhece. "Os nossos pecados" também constitui um fato que ninguém pode negar. No entanto, cada um desses fatos sozinho ainda constitui um mistério insolúvel. Temos que aceitar a explicação de Deus: "Cristo morreu PELOS nossos pecados" (I Co.15:3) ou teremos dois problemas perturbantes que não poderemos explicar. Tem sido bem dito que, aqui, na pequena contração da preposição "pelos", temos "a chave do céu".
Assim, nos dois "porquês" que consideramos aqui, os problemas da morte de Cristo e dos nossos pecados ficam resolvidos. Eles resolvem-se um ao outro. O Salvador e o pecador são juntados. O blasfemador, o perseguidor, é completamente transformado e enquanto ele considera Cristo crucificado, exclama cheio de gratidão, "[Ele] me amou, e se entregou a si mesmo por mim" (Gl.2.20).
SAULO O PECADOR
Consideremos o quadro que nos é apresentado no livro dos Atos. Só há uma nação, apenas uma, que Deus reconhece como Sua e eis que esta nação se junta às outras na rebelião contra Ele! E quem é que inspira e conduz a rebelião? Saulo de Tarso!
E quem é este Saulo de Tarso? Um desordeiro, um assassino? De jeito nenhum! Trata-se de alguém pertencente à raça escolhida que era altamente respeitado pela sua nação. Era um cuidadoso observador da Lei, zeloso das tradições dos seus pais.
Ignoraria, então, ele as profecias do Velho Testamento, para não reconhecer Cristo? Não! Ele era fariseu, filho de uma linha de fariseus, hebreu de hebreus, pertencendo orgulhosamente à tribo de Benjamim, um líder espiritual em Israel com um conhecimento profundo da Lei e dos profetas.
No entanto, este homem conduziu Israel numa perseguição feroz contra os seguidores de Cristo, determinado a exterminar o nome e a memória de Jesus.
O registro divino relata como, no apedrejamento de Estêvão, "Saulo consentiu na morte dele", e informa-nos que o homicídio de Estêvão provocou "uma grande perseguição" em que "Saulo assolava a Igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão" (At.8:1-3).
De fato, o próprio Paulo reconheceu mais tarde: "E, enfurecido demasiadamente contra eles, até nas cidades estranhas os persegui" (At.26:11). Foi em relação à última destas "cidades estranhas", que lemos:
"E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao Sumo Sacerdote
"E pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, afim de que, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém.
"E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu" (At.9:1-2).Armado assim, "com poder e comissão dos principais dos sacerdotes" (At.26:12), Paulo propôs-se em prender tantos discípulos quantos pudesse e trazê-los "manietados para Jerusalém... afim de que fossem castigados" (At.22:5).
Este propósito nunca foi cumprido, pois ele próprio foi aprisionado pelo Senhor glorificado e foi salvo no caminho de Damasco. E quando o Senhor enviou Ananias para lhe ministrar, Ananias respondeu,
"Senhor, a muitos ouvi acerca deste homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém;
"E aqui tem poder dos principais dos sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome" (At.9:13,14).E quando os crentes de Damasco ouviram-no testemunhar de Cristo, disseram, "Não é este que em Jerusalém perseguia os que invocavam este nome?" (At.9:21).
Posteriormente, em oração, Paulo confessou a Cristo: "eu lançava na prisão e açoitava nas sinagogas os que criam em ti" (At.22:19), e testemunhou perante Agripa:
"...encerrei muitos dos santos nas prisões; e quando os matavam eu dava o meu voto contra eles.
"E, castigando-os muitas vezes por todas as sinagogas, os obriguei a blasfemar" (At.26:10-11).Tudo isto, e mais, encontramos no registro de Lucas sobre as obras e confissões de Paulo, mas a isso Paulo acrescenta as suas próprias declarações escritas:
"...sobremaneira perseguia a igreja de Deus e a assolava" (Gl.1:13).
"Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou" (I Co.15:9-10).
"E dou graças Ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério; a mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso" (I Tm.1:12-13).É verdade que o Apóstolo explica nesta passagem que o fez "ignorantemente, na incredulidade", mas não o faz para ser absolvido da culpa. Como Saulo, o fariseu, ele podia e devia ter sabido que Jesus era o Cristo, mas ele não desejava crer nisto. Por conseguinte, a ignorância dele, comoveu, na verdade, o compassivo coração de Deus, do mesmo modo que nós poderíamos apiedarmo-nos de alguém que se injuria a si mesmo pela sua obstinação cega, todavia a atitude dele era, apesar de tudo, totalmente indesculpável.
De fato, ele enfatiza o pecado dele quando salienta que foi apenas porque "a graça de nosso Senhor superabundou" que ele, o "principal" dos "pecadores" foi salvo. De fato, é a partir desta hipótese que ele argumenta que a graça de Deus é suficiente para salvar qualquer pecador (I Tm.1:15-16).
SAULO E A RAÇA HUMANA
Deverá ser claramente compreendido que Saulo de Tarso, o blasfemo e homicida, representava toda a raça humana na sua rebelião contra Deus e o Seu Cristo. O único canal através do qual Deus ainda mantinha relações com o mundo nos dias de Saulo era com a nação de Israel e Saulo tinha-se tornado o líder da rebelião de Israel. Saulo representava Israel e Israel representava o mundo. Saulo representava o espírito da rebelião de Israel, sim, o espírito da rebelião do mundo contra Deus e o Seu Cristo (Sl.2:1-3).
Foi a incrível falta de razão da inimizade do mundo contra Cristo, que o nosso Senhor exprimiu quando bradou do céu: "Porque me persegues?".
CRISTO E A RAÇA HUMANA
À nossa volta as pessoas perguntam "Porquê?". Porquê esta doença tão prolongada e dolorosa? Porquê esta carga insuportável? Porquê este luto de partir o coração? Porquê esta guerra horrível? Porque Deus permite todo este sofrimento e tribulação e miséria e morte? Porquê? ...porquê? ...porquê?
Mas os que perguntam porque Deus permite que o sofrimento e a miséria e morte aflijam a humanidade esquecem-se, normalmente, duma questão muito maior. Porque é que Deus abandonou Cristo no Calvário? Nós, que somos pecadores, podemos esperar sofrimento e miséria e tribulação, mas Cristo não tinha pecado. Porque Ele, o Santo, que "andou fazendo bem" (At.10:38), teve de sofrer a agonia e a vergonha por causa dos pecados que Ele nunca cometeu? Como um Deus justo, sem se falar em um Pai amoroso, pôde permitir que homens maus sujeitassem o Seu Filho ao sofrimento e à morte – sim, até a "morte de cruz" (Fp.2:8)?
E isto levanta uma outra questão: Porque Deus permitiu o pecado em primeiro lugar? Se for respondido que, originalmente, Deus criou o homem à Sua imagem, como um agente moral livre, com o poder de escolha, então porque Deus o criou assim ou porque, pelo menos, não o impediu de pecar ou de alguma maneira restringiu ou habilitou o poder dele para escolher ativamente entre o bem e o mal? E quanto mais perguntas deste tipo se faz, mais perguntas surgem.Não há dúvida de que, na Bíblia, todas estas questões podem encontrar respostas, não apenas satisfatórias, mas que satisfazem, e são gratificantes. Porém, é no Calvário que se encontra a solução básica para este grande enigma. Nós temos ali uma grande evidência de que, ao permitir que o pecado entrasse na raça humana, Deus não agiu, nem impulsiva, nem caprichosamente, nem ignorando o bem do homem. Nós vemos ali Cristo, o amado Filho de Deus, morrendo como malfeitor pelos nossos pecados.
Nós temos assim a solução para ambos os enigmas: A morte de Cristo e os nossos pecados, nas benditas palavras da mensagem que Deus deu a Paulo: "Cristo morreu pelos nossos pecados" (I Co.15:3). É, de fato, verdade que, aqui, na pequena contração da preposição "pelos", temos "a chave do céu".
"Cristo morreu PELOS nossos pecados" (I Co.15:3).
É esta a solução para os dois maiores enigmas do universo e da história: os enigmas da morte de Cristo e do pecado do homem.
"Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal" (I Tm.1:15).
Se não é verdade que o Senhor Jesus Cristo veio a este mundo voluntariamente, especialmente para sofrer e morrer pelos nossos pecados, então não há nenhuma razão para o que quer que seja. Nesse caso, com certeza, se poderia dizer que, "O bem está no cadafalso" e "O mal está no trono", e que o próprio Deus poderia ser acusado de injustiça, e até de crueldade, por permitir que aquele que era, no mínimo, um homem bom e inocente, morrer em agonia e desgraça nas mãos de homens iníquos.
O "Porquê" da cruz, então, é explicado pelo "Porquê" do caminho de Damasco. Por causa da falta de razão da inimizade e pecado do homem, Deus, para salvá-lo, teve de ser mais do que razoável e dar o Seu próprio Filho – Ele mesmo – para sofrer a punição do pecado do homem, e Ele fez isto em infinito amor e graça.
AS RIQUEZAS DA GRAÇA REVELADAS
Nós lemos em Lc.18:31-33 que o nosso Senhor disse aos doze apóstolos que Ele sofreria, morreria e ressuscitaria ao terceiro dia, mas o registro continua e diz:
"E eles nada disto entendiam, e esta palavra lhes era encoberta, não percebendo o que se lhes dizia" (v. 34).
É claro que depois da Sua morte e ressurreição estes apóstolos compreenderam que as Escrituras se tinham cumprido, mas, mesmo nesta hora, não compreendiam o significado pleno da morte e ressurreição de Cristo. Isso ainda "lhes era encoberto". Deus revelá-lo-ia algum tempo mais tarde, por meio do Apóstolo Paulo.
"Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.
"O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, PARA SERVIR DE TESTEMUNHO A SEU TEMPO.
"Para o que [eu, Paulo] (digo a verdade em Cristo, não minto) fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios na fé e na verdade" (I Tm.2:5-7; cf. Gl.3:23; Tt.1.2-3, etc.).Em Pentecostes Pedro não proclamou a morte de Cristo como o grande remédio de Deus para o pecado. Ele acusou Israel da morte de Cristo e avisou-os de que Deus O tinha ressuscitado dos mortos para O assentar no trono de Davi, apesar de O terem rejeitado como seu Rei (At.2:25-36). Ele não disse: "Cristo morreu pelos vossos pecados. Crede no Senhor Jesus Cristo e sereis salvos." Foi Paulo quem disse isto pela primeira vez, algum tempo mais tarde. O que Pedro disse aos seus ouvintes convictos foi: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados..." (At.2:38).
Muitos, confundindo o ministério de Pedro com o de Paulo, ainda proclamam o batismo na água para o perdão dos pecados, ou requerem-no para uma pessoa se tornar membro de igreja, ou pelo menos acrescentam-no depois de terem proclamado a obra "consumada" de Cristo para a salvação.
Mas o que dizem as Escrituras? Não é até Paulo entrar em cena que aprendemos que os crentes podem ser "justificados gratuitamente pela Sua graça [de Deus], pela redenção que há em Cristo Jesus" (Rm.3:24).
É Paulo, e ninguém antes dele, que declara:
"Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas" (Rm.3:21).
"Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que Ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus" (Rm.3:26).A respeito da morte e ressurreição de Cristo, há uma enorme diferença entre a mensagem de Pedro em Pentecostes e a mensagem posterior de Paulo. E há uma enorme diferença entre o requisito que Pedro apresentou, de arrependimento e batismo "para perdão dos pecados" e a oferta posterior que Paulo fez da justiça de Cristo "para o perdão dos pecados".
Se em Pentecostes, Pedro, trabalhando sob a chamada "grande comissão", tivesse conhecido que "temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da Sua graça", não teria pregado esta gloriosa verdade à multidão culpada? Contudo, as Escrituras tornam inequivocamente claro que esta grande verdade não serviu "de testemunho" antes do devido "tempo", por meio do Apóstolo Paulo (I Tm.2:5-7; Tt.1:2-3; etc.).
Para compreendermos o propósito profetizado de Deus a respeito do reino que será estabelecido na terra, devemos sempre associar Cristo aos doze apóstolos e às doze tribos de Israel. Porém, para compreendermos o propósito oculto de Deus, "o mistério", devemos sempre associar o nosso Senhor a Paulo. Juntemos o Salvador ao principal dos pecadores e teremos uma combinação feliz! Veja de novo o testemunho do próprio Paulo a este respeito:
"Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.
"Mas POR ISSO alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna" (I Tm.1:15-16).UMA ILUSTRAÇÃO DO VELHO TESTAMENTO
Talvez um episódio do Velho Testamento sirva para ilustrar a salvação sob "a dispensação da graça de Deus" e explique porque Deus escolheu especificamente o principal dos pecadores para demonstrar e proclamar esta mensagem da graça.
A PROSTITUTA RAABE
"Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias" (Hb.11:1).
O relato que os doze espias trouxeram de Canaã quando Israel ainda estava no deserto foi, no mínimo, um desafio.
Por um lado, Canaã foi relatada como sendo "terra muito boa", manando, por assim dizer, "leite e mel" (Nm.14:7-8). Mas por outro lado, os seus habitantes eram poderosos e as cidades "fortificadas e mui grandes" (13:28). Ou, como apresenta Dt.1:28: "Maior e mais alto é este povo do que nós, as cidades são grandes e fortificadas até aos céus...".
Jericó era a primeira daquelas grandes cidades fortificadas. Escavações arqueológicas têm confirmado o testemunho dos antigos escritores quanto ao tamanho dos muros nos dias de Josué. Adicionalmente ao muro exterior, com cerca de 2 metros de espessura, havia um muro interior, com cerca de 4 metros de espessura e cerca de 9 metros de altura. Isto proporcionava uma proteção quase invencível contra os poderosos exércitos daqueles dias.
A FÉ DE RAABE
No entanto, no interior da cidade havia medo. Medo de Israel, cujo Deus, Jeová, tinha-lhes libertado do Egito, aberto um caminho seco através do Mar Vermelho, conduzindo-os, inclusive com suas famílias e gado, através do deserto e já tinha-lhes concedido vitórias significativas na sua conquista de Canaã.
Foi a esta cidade que Josué enviou dois espias, que agora encontravam proteção na casa de Raabe, a prostituta, situada sobre o muro de Jericó. Que os espias não estavam na casa de Raabe com um propósito imoral fica claro no registro das Escrituras, mas, mais do que isto, Raabe não só temia agora a Jeová, como cria Nele. Veja o seu testemunho comovente:
"E disse aos homens: Bem sei que o Senhor vos deu esta terra e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desfalecidos diante de vós.
"Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do Mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito, e o que fizestes aos dois reis dos amorreus, a Seom e a Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes.
"O que ouvindo, desfaleceu o nosso coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; PORQUE O SENHOR VOSSO DEUS É DEUS EM CIMA NOS CÉUS E EM BAIXO NA TERRA" (Js.2:9-11).A declaração final desta passagem aponta para a diferença entre Raabe e o resto dos habitantes de Jericó, pois expressa a sua fé pessoal em Jeová, Deus de Israel. Eles temiam-No, mas ela temia-O e cria Nele. Foi por isso que ela "não pereceu com os incrédulos" (Hb.11:31).
EVIDÊNCIAS ADICIONAIS DA FÉ DELA
As evidências da fé de Raabe são vistas no seu testemunho, no fato de ela ter escondido os espias e feito um concerto com eles e em outras formas. Porém, as evidências mais tocantes são as do ponto de vista moral e espiritual.
Sem dúvida estava envergonhada do seu passado, ela agora torna-se preocupada com a família que tinha desonrada, pois ela continua a dizer:
"Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo Senhor [hebraico: Jeová], que, como usei de misericórdia convosco, vós também usareis de misericórdia para com a casa de meu pai, e dai-me um sinal seguro,
"De que conservareis com a vida a meu pai e a minha mãe, como também a meus irmãos e a minhas irmãs, com tudo o que têm e de que livrareis as nossas vidas da morte" (Js.2:12-13).Antes de escaparem pela janela da casa de Raabe usando a corda de cor escarlate que ela providenciara, os espias não apenas juraram usarem com ela "de misericórdia e de fidelidade", mas foram até mais longe. Notemos o registro:
"Eis que, quando nós entrarmos na terra, atarás este cordão de fio de escarlata (1) à janela por onde nos fizeste descer; e recolherás em casa contigo a teu pai, e a tua mãe, e a teus irmãos e a toda a família de teu pai.
"Será, pois, que qualquer que sair fora da porta da tua casa, o seu sangue será sobre a sua cabeça, e nós seremos inocentes; mas QUALQUER QUE ESTIVER CONTIGO, EM CASA, o seu sangue seja sobre a nossa cabeça, se alguém nele puser mão" (Js.2:18-19).Que expressão maravilhosa, qualquer que (ou, todo aquele que)! Quantas vezes a encontramos nas epístolas de Paulo e nos escritos de João a respeito da salvação! Aparece aqui como figura! Isto não indica, de forma alguma, que, afinal, "o mistério", revelado a Paulo não era um segredo "oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações", pois ninguém na época sabia que estas pessoas e coisas eram figuras e muito menos o que representavam. Só nos mostram agora que o coração de Deus estava cheio do Seu "propósito eterno".
Portanto, outra evidência da fé de Raabe é visto no v.21, onde lemos: "...e eles se foram; e ela atou o cordão de escarlata à janela", como "um sinal certo" – tanto para ela como para eles. O mesmo cordão que era o meio de escape deles também seria usado como o meio de escape dela e de todos aqueles que estivessem com ela em sua casa.
Que bela figura era este cordão de fio de escarlata do "precioso sangue de Cristo", através do qual todos os crentes têm "a redenção... segundo as riquezas da Sua graça" (I Pe.1:18-19; Ef.1:7)!
"OS INCRÉDULOS"
Sabemos que a grande maioria dos habitantes de Jericó não cria, pois Josué 6 informa-nos que após a libertação de Raabe e de todos os que com ela estavam, a cidade foi totalmente destruída, com tudo o que havia nela (v.20-23).
Mas há alguma sugestão, bastante clara, de que alguém da própria família de Raabe não cresse? Ela tinha pedido aos espias que jurassem que salvariam toda a sua família, incluindo "as minhas irmãs, com tudo o que têm" (Js.2:13), mas eles não lhe prometeram que o fariam. Disseram antes, "e recolherás em casa contigo a teu pai, e a tua mãe, e a teus irmãos e a toda a família (2) de teu pai" (v.18).
Porque eles omitiram as irmãs de Raabe, por cuja libertação ela tinha especificamente rogado? Teria sido um lapso descuidado da parte deles? Ou, pelo contrário, foi uma omissão inspirada, porque as irmãs dela não estavam com ela em casa, quando a cidade foi tomada?
O registro imediato explica. No capítulo 6, onde temos o registro da conquista de Jericó, lemos que os espias entraram e libertaram "Raabe e à família de seu pai, e a tudo quanto tinha" (v.25), mas isto trata-se duma declaração genérica (como a dos v.22-23) e o "tudo quanto tinha" pode bem referir-se a todos os que ela tinha consigo na sua casa, pois sabemos que só estes seriam salvos (2:19; 6:17).
Mas Js.6:23, a passagem que enumera especificamente os que foram salvos, omite na lista, uma vez mais, as irmãs. A passagem diz:
"Então entraram os jovens espias, e tiraram a Raabe e a seu pai, e a sua mãe, e a seus irmãos, e a tudo quanto tinha; tiraram também a toda a sua parentela,3 e os puseram fora do arraial de Israel" (6:23). (4)
Neste caso a omissão das irmãs na lista pode dificilmente ser resultado de lapso, pois aqui nós temos, não o registro do que os espias disseram, mas o registro inspirado do que realmente aconteceu.
Nós trazemos este assunto à tona, em primeiro lugar para enfatizar o fato de que apenas os que estavam com Raabe na casa foram salvos, de acordo com a promessa. Ninguém foi salvo por meramente ser parente dela. Mas além disso, como se vê, esta omissão das irmãs de Raabe enfatiza também a relação do orgulho humano com a incredulidade.
É fácil de imaginar a reação de alguns dos habitantes de Jericó ao saberem que, quando Israel atacasse, todo aquele que estivesse com Raabe na casa, seria poupado! "Ora, vá para uma casa de má reputação e achará a misericórdia! Refugie-se com uma prostituta! Nunca! É melhor tentar a sorte com as pessoas boas de Jericó", diriam alguns. E da família de Raabe, sem dúvida as suas irmãs teriam sido as que mais se recusaram entrar, estando mais profundamente magoadas com a conduta dela. (5)
Assim, para se ser salvo da ruína de Jericó, era necessário tomar abrigo numa casa de má reputação, com uma mulher pecadora, agora remida. "Qualquer que estiver contigo, em casa"; eram estas as condições claras da promessa.RAABE E PAULO
Quase podemos ouvir algum leitor protestar: "Está comparando Paulo com Raabe?" Bem, Paulo não se denomina o principal dos pecadores em I Tm.1:15? Isto não foi mera modéstia da parte de Paulo; ele escreveu por inspiração divina; é parte da Palavra de Deus escrita.
Protesta-se que o pecado de Raabe foi pior do que o de Paulo? Nós não negamos que Paulo tenha sido um pecador de espécie diferente, mas não era menos pecador. Recordemos como nosso Senhor respondeu sem papas na língua a Nicodemos (outro fariseu), o religioso filósofo: "Necessário vos é nascer de novo" (Jo.3:7), enquanto que no capítulo seguinte Ele diz graciosamente à mulher pecadora de Samaria:
"Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é O que te diz: Dá-me de beber, tu Lhe pedirias, e Ele te daria água viva" (Jo.4:10).
Além disso Ele disse sem cerimônia aos líderes religiosos de Israel,
"Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus" (Mt.21:31).
Vemos assim que um Deus santo odeia o orgulho no pecador, e é assim que lemos na Palavra de Deus que Ele "resiste aos soberbos" e "conhece-o[s] de longe" (I Pe.5:5; Sl.138:6).
É verdade que Paulo, como Saulo de Tarso, tinha sido consciencioso nas suas crenças religiosas, mas também era justo aos seus próprios olhos e rebelde contra Cristo, determinado a exterminar o Seu nome e memória das páginas da história. E, como dissemos, ele afirma claramente a razão dele, o principal dos pecadores, ter sido salvo, na sua comovente declaração de I Tm.1:16:
"...POR ISSO ALCANCEI MISERICÓRDIA, PARA QUE EM MIM, QUE SOU O PRINCIPAL, JESUS CRISTO MOSTRASSE TODA A SUA LONGANIMIDADE, PARA EXEMPLO DOS QUE HAVIAM DE CRER NELE PARA A VIDA ETERNA".
Do mesmo modo que no caso do livramento de Jericó, em que o livramento foi prometido a todos os que estivessem com Raabe na sua casa, assim também hoje, a salvação é prometida a todos os que tomarem o seu lugar com Paulo, o principal dos pecadores salvo pela graça; que dizem com efeito: "Eu também sou um pecador; seguirei o apóstolo Paulo e confiarei no Senhor Jesus Cristo como Aquele que "veio ao mundo salvar os pecadores".
Em conclusão, Raabe a prostituta, como Rute a Moabita, tornou-se numa ascendente de nosso Senhor Jesus Cristo! O nome dela ainda se encontra ilustremente inscrito entre as quatro mulheres mencionadas na genealogia de nosso Senhor (Mt.1:5). Que honra!
Assim, o nosso grande Deus de amor toma os mais baixos que confiam Nele e dá-lhes os lugares mais elevados de honra e bênção. Enquanto pensamos no passado de Raabe e no que Deus fez graciosamente por ela, não podemos deixar de nos lembrar de Efésios 2, onde lemos que outrora tínhamos sido "filhos6 da desobediência", e por conseguinte, "por natureza filhos (7) da ira, como os outros também":
"Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor com que nos amou,
"Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos),
"E nos ressuscitou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;
"Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da Sua graça pela Sua benignidade para conosco em Cristo Jesus" (Ef.2:4-7).Que Deus ajude qualquer leitor deste capítulo que não conhece a Cristo como Salvador a tomar o seu lugar com Paulo, o principal dos pecadores salvo pela graça, e entrar assim no conhecimento do regozijo da salvação pela graça, apenas por meio da fé.
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