REBELIÃO CONTRA A
AUTORIDADE PAULINAPAULO E OS PAIS DA IGREJA
Ireneu é um dos primeiros "Pais da Igreja" cujos escritos ainda temos em nossa posse. Ele viveu no segundo século depois de Cristo e conheceu Policarpo, o famoso mártir e discípulo do Apóstolo João.
Ireneu é talvez melhor conhecido pelos seus escritos contra as heresias dos seus dias, ainda que ele próprio não estivesse isento de heresia e algumas vezes tivesse procurado refutar o que não era heresia mas a verdade.
Uma heresia séria que ele defendeu e de que a Igreja de Roma se tem apropriado para apoiar seus pontos de vista, é a de que a Igreja é o tribunal final de apelo no que diz respeito à verdade e que a salvação só pode ser obtida dela. (1) Referindo-se aos testemunhos de outros pais da Igreja, ele disse a este respeito:
"Por conseguinte, uma vez que temos tais provas, não é necessário procurar a verdade entre outras quando esta é tão fácil de ser obtida da Igreja, uma vez que os apóstolos, como o rico [ao depositar o seu dinheiro] num banco, colocou abundantemente nas mãos dela todas as coisas pertencentes à verdade, de modo que a qualquer homem que queira, poder extrair dela a água da vida".
"Suponhamos que se levanta uma disputa relativa a uma questão importante entre nós, não deveríamos ter recurso às igrejas mais antigas com as quais os apóstolos tiveram constantes relações, e aprender delas o que é certo e claro com respeito à atual questão latente? (Ante-Nicene Fathers, Roberts and Donaldson, Vol. I, Pg. 416, 417).
Certamente para os Católicos Romanos o argumento de Ireneu parece são, mas o fato é que as "igrejas mais antigas com as quais os apóstolos tiveram constantes relações" caíram elas próprias em heresias e isso na mesma época dos apóstolos, anos antes de Ireneu ter nascido! Em quantos casos os apóstolos trataram de heresias que já então ganhavam terreno na Igreja! No entanto, Ireneu procurava autoridade doutrinal na Igreja nos seus dias, quando um número ainda maior de heresias se tinha levantado. E, agora, no século vinte, depois de toda a espécie de heresias se ter levantado pervertendo a verdade – que certamente não é menor em Roma que noutros ramos da Igreja professa – Roma quer ver-nos submetidos à "autoridade" da (própria!) Igreja.
É verdade que a doutrina da Igreja foi posta nas mãos de homens que supostamente eram fiéis, porém, nenhum homem foi completamente fiel. Era difícil para Ireneu não ver isto e procurou uma salvaguarda numa heresia ainda maior, pois declarou ser seu propósito responder às heresias dos seus dias salientando a "tradição muito grande, muito antiga, e universalmente conhecida Igreja, derivada dos apóstolos e fundada e organizada em Roma pelos dois apóstolos mais gloriosos, Pedro e Paulo; e também [salientando] a fé pregada aos homens, que desceu até ao nosso tempo por meio da sucessão dos bispos. Portanto, é uma questão de necessidade que toda a igreja concorde com esta Igreja, por causa da sua autoridade preeminente..." (Ibid. Pg.415).
Assim, temos de obter a verdade da "Igreja", mas "é uma questão de necessidade" que toda igreja na Igreja concorde com uma só Igreja – a de Roma, uma vez que a verdade foi-nos preservada "por meio da sucessão dos bispos" dessa Igreja!
Como um só erro conduz a outro! Parece que para se manter uma falsa doutrina é invariavelmente necessário defender as suas falhas avançando-se com outra falsa doutrina!
À luz do exposto acima não é estranho encontrar Ireneu lutando contra a verdade paulina. Quaisquer que tivessem sido as heresias que os Marcionitas (2) dos seus dias tenham defendido, Ireneu procurou responder-lhes provando que a mensagem e ministério de Paulo não eram diferentes da mensagem e ministério dos doze, e não há dúvida que interpreta mal os Marcionitas quando se refere a eles como "aqueles que alegam que apenas Paulo conhecia a verdade e que a ele foi manifestado o mistério por revelação" (Ibid. Pg.436).
Tolices como a primeira destas duas acusações ainda são apresentadas por aqueles que desesperam na procura de respostas para os argumentos inspirados do Apóstolo Paulo, todavia, o fato permanece que Paulo, pelo Espírito, declara distintamente que "o mistério foi-lhe revelado por revelação": assim, neste caso, Ireneu não apenas se opôs a Paulo, mas à Palavra de Deus, na qual o Apóstolo afirma:
"Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios;
"Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada;
"Como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi" (Ef.3:1-3).
Esta passagem da Palavra de Deus – e existem muitas outras – manuscrita pelo próprio Paulo cerca do ano 64 d.C., é suficiente para silenciar completamente os argumentos tanto dos pais da Igreja, que viveram depois dele, como daqueles que hoje dizem ter reverência para com a Palavra, mas neste caso não crêem nela.
Ireneu procurou responder aos argumentos da mensagem e ministério distintos de Paulo utilizando o mesmo processo que muitos seguem nos nossos dias.
1. Derrubando a sua própria tolice e provando o que ninguém nega: isto é, que outros, além de Paulo, conheciam a verdade!
2. Salientando o que todos admitem do mesmo modo: que Paulo e os doze pregaram muita coisa em comum.
3. Salientando que Lucas, o companheiro inseparável de Paulo, não mencionou, nem no seu Evangelho e tampouco em Atos, o mistério que Paulo é suposto ter recebido por revelação. "Certamente", diz ele, "se Lucas, que pregou sempre na companhia de Paulo... não aprendeu dele nada diferente... como é que estes homens [os Marcionitas] que nunca andaram com Paulo, se orgulham de ter aprendido [dele] mistérios ocultos e inefáveis?" (Ibid. Pg.438).
Mas para se saber se um mistério especial foi revelado a Paulo, é lógico que se inquira Paulo, e não Lucas, especialmente porque ele escreveu sobre o assunto por revelação divina. É claro que os escritos de Paulo testemunham abundantemente o fato de uma gloriosa verdade chamada de "o mistério" ter-lhe sido revelada depois deste ter estado "oculto desde todos os séculos e em todas as gerações" (Ver Rm.16:26; Ef.1:9, 3:1-11, 6:18-20; Cl.1:25-27, 4:3; etc.).
No caso dos escritos de Lucas temos uma narração exemplar de seleção divina na inspiração. Lucas não mencionou o mistério nos seus escritos porque ele, à semelhança de Paulo, escreveu por inspiração divina, e foi o propósito declarado de Deus distinguir Paulo como aquele a quem o mistério seria revelado e por meio de quem seria proclamado.
Além disso, nunca deve ser esquecido que o Livro de Atos não é, como geralmente se supõe, a história do nascimento da Igreja desta dispensação, mas antes a história da queda da nação de Israel, justificando completamente Deus pelo afastamento (temporariamente) e por suspender provisoriamente o estabelecimento do reino, enquanto enviava Paulo a proclamar "o evangelho da graça de Deus" a judeus e gentios indistintamente.
Mais ainda, Lucas, no Livro de Atos, registra como Pedro e os doze dominaram a primeira metade de Atos e foram suplantados por Paulo na última metade. Deus revela assim o Seu propósito de constituir Paulo o Apóstolo da atual dispensação.
A moral de tudo isto? Não ajamos em função dos "pais" ou da "Igreja"; ajamos em função do Livro de Deus! Os melhores dos homens são apenas homens. Todos nós falhamos, quer individualmente quer coletivamente, e sabendo isto, os verdadeiros bereanos investigam as Escrituras diariamente para as confrontar com os ensinos até dos maiores homens de Deus.
Os pais da Igreja e a Igreja como um todo, não têm feito melhor do que Israel no passado, no que é relacionado com a Palavra e a vontade de Deus. Aqui, há aproximadamente 1800 anos, temos Ireneu introduzindo heresias na Igreja, porém, dizendo aos homens para irem à Igreja buscar a verdade e a salvação! Ele incitou os homens a dirigirem-se "às igrejas mais antigas com as quais os apóstolos tiveram constantes relações", e no entanto declarava que essas igrejas estavam erradas por que discordavam "com esta Igreja" – Roma! Ele exortava os homens a confiarem na "sucessão dos bispos" de Roma, no entanto, chegando em Roma ele próprio foi humilhado ao encontrar Eleutherus, o então Bispo de Roma, defendendo a heresia Montanista!" (Ibid. Pg.309).
Nas Escrituras não há absolutamente nada sobre a sucessão apostólica ou sobre a "autoridade" da Igreja desta dispensação, a não ser o que Paulo diz aos anciãos Efésios:
"Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho;
"E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si" (At.20:29-30).
Paulo não recomendou estes efésios a Timóteo, seu "sucessor" em Éfeso. Pelo contrário, ele disse:
"Agora, pois, irmãos, ENCOMENDO-VOS A DEUS E À PALAVRA DA SUA GRAÇA; a Ele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados" (At.20:32).
Voltamo-nos, então, apenas para o Livro, e para ele bem manejado, reconhecendo que enquanto toda a Palavra de Deus é para nosso proveito, os escritos de Paulo, "o apóstolo dos gentios", são particularmente dirigidos a nós, dando-nos a mensagem de Deus para o mundo de hoje, bem como o Seu programa para a Igreja atual.
Mas não foram apenas os teólogos dos séculos passados que se rebelaram contra a autoridade dada por Deus a Paulo. Satanás também se opôs á mensagem de Paulo ao longo dos séculos, uma vez que ele sofreu e morreu como embaixador da graça. De fato, a oposição a Paulo, quer sutil, quer aberta, é um fenômeno pronunciado dos nossos dias.
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