Os Dons e Sinais Sobrenaturais do Período de Atos
por Paul. M. Sadler


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Dedicatória

Esta obra oportuna é dedicada àqueles que buscam diligentemente a verdade.

 

Introdução

"Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?" (I Coríntios 14:8).

Estamos vivendo numa época em que muitos estão querendo "voltar a Pentecostes" com os seus sinais, milagres, e maravilhas. Infelizmente, este ensinamento infundado está varrendo toda a igreja em uma velocidade alarmante.  Tanto é que o falar em línguas tornou-se o padrão da verdadeira espiritualidade, mesmo entre os que já se opuseram ao pentecostalismo.  Felizmente, o evangelho de Paulo é a resposta para esta confusão.

Apesar de outros defensores da fé terem tratado habilmente este assunto, esperamos, com a ajuda de Deus, dar alguma contribuição para o debate.  A maioria dos comentaristas baseia a sua defesa em que os dons sobrenaturais não estão mais em operação concluindo que estes dons hoje estão ausentes entre os membros do Corpo de Cristo.  Isso é verdade, mas a falha da Igre­ja em tratar adequadamente esta questão dispensacionalmente deve-se à sua fraqueza em manejar bem a Palavra da verdade.  Por um lado, ensinam aos seus ouvintes para seguirem as pisadas de Cristo que ensinou: "e estes sinais seguir-se-ão aos que crerem" (Mc.16:17), mas por outro lado declaram que estes dons cessaram, sem apresentar qualquer evidência.


A solução para o problema jaz no apostolado e mensagem de Paulo.  Paulo recebeu uma nova revelação do Senhor da glória, que descreve claramente o cessar destas manifestações milagrosas do período de Atos.  Este processo cobriu um período de aproximadamente cinco anos.  Assim sendo, próximo do fim da vida do apóstolo, os dons de sinais que antes tinham tanto caracte­riza­do o início do seu ministério, não passavam senão de uma mera lembrança.  Como veremos, eles foram substituídos por algo infinitamente melhor!

– Paul M. Sadler
Milwaukee, Wisconsin
7 de janeiro de 2001

Capítulo 1

 

Marqueteiros* Religiosos

 

Uma boa bússola pode impedir-nos de ir na direção errada.  Trata-se de um pequeno dispo­sitivo que aponta sempre para o norte magnético.  As pessoas que se perdem nas montanhas normalmente andam em círculos até a exaustão as deixar delirantes.  É claro que o perigo passa rapidamente do estar-se perdido para o risco de morte por hipotermia.  Se estas pessoas tivessem levado consigo uma bússola, poderiam ter seguido uma linha reta até loca­lizarem algum tipo de ponto de referência.

 

 As coisas não são muito diferentes no âmbito espiritual. Muitos santos queridos vagueiam num labirinto de confusão quando se trata da questão dos dons de sinais sobrenaturais.  O que eles precisam é de uma bússola, que segundo as Escrituras corresponde ao seu manejo correto. O manejo correto da Palavra de Deus dirige sempre o crente para a vontade do Senhor, qual­quer que seja a dispensação em que ele viva.

 

Quando nos esforçamos para apresentar os nossos corpos em "sacrifício vivo, santo e agradável a Deus" (Rm.12:1), as nossas experiências espirituais são muitas e variadas.  Contudo, o nosso andar nunca deve ser contrário à vontade de Deus revelada.  Portanto, para mantermos a correta direção es­piritual, temos de manejar de modo consistente a Palavra da verdade.  Podemos citar novamente o ditado intemporal: "Apesar de toda a Palavra de Deus ser para nós, não foi toda escrita para nós, nem é toda sobre nós".  Uma pessoa pode estar biblicamente correta, mas dispen­sacionalmente errada.  Um querido amigo enviou-nos recentemente um recorte de jornal que revela este tipo de inconsistência.

 

O que transcrevemos a seguir são declarações espantosas que foram feitas a respeito de uma curandeira de fé bem conhecida: "Ministra, curandeira, alguém que vê através de Deus.  Mui­tos a chamam operadora de milagres…  Ela tem um dom de oração e cura.  Deus revela-lhe o passado e futuro de outras pessoas usando o seu dom divino.  A sua religião é a santidade, conhecida por alguns como pentecostalismo.  Ela unge as suas mãos com azeite e pede que Deus lhe dê uma mensagem… [Além disso], ela já viajou por todo o mundo pregando, orando e curando, e também profetizando…".

 

Infelizmente, há uma tendência preocupante que está ocorrendo na comunidade cristã, hoje.  Muitos crentes sinceros, embora sejam, sem dúvida, enganados, estão sendo arrastados para um frenesi e delírio emocional pensando que Deus está derramando o Seu Espírito.  Conseqüentemente, aqueles de convicção carismática alegam que Deus completou o ciclo; por isso bradam: "Vamos voltar ao dia de Pentecostes!"  Isto explica porque ouvimos cada vez mais sobre sinais, milagres e ma­ra­vilhas.  Apesar de muitos carismáticos conhecerem e amarem o Senhor, geralmente falham em fazer as distinções dispensacionais adequadas.

 

Nestes últimos dias, a "imposição de mãos" está penetrando na cristandade como a peste negra varreu a Europa no século XIV.  Evangelistas inundam as transmissões de rádio e televisão gloriando-se de terem curado cen­te­nas de pessoas de todo tipo de enfermidade conhecida pelo homem.  Contrariamente à clara linha de ensino dispensacional ousam garantir que pernas foram alongadas, lesões de colunas vertebrais revertidas, e tumores cancerígenos milagrosamente removidos.  Ironicamente, alguns desses mesmos indivíduos estão ativamente envolvidos na construção de hospitais.  O pastor J. C. O'Hair tocou no âmago da questão quando declarou: "Deixe que falem o que quiserem, mas a morte continua sendo uma por pessoa."

 

O Perigo de Colocar a Nossa Fé na Experiência

 

O "mover do Espírito", às vezes quase parece bizarro quando ouvimos sobre cachorros sendo ressuscitados, máquinas de lavar roupa sendo milagrosamente consertadas e tanques de gasolina de alguma forma sendo enchidos sobrena­tu­ralmente.  Tão absurdo quanto o que acima foi escrito possa parecer, nossos amigos carismáticos freqüentemente fazem perguntas penetrantes que lançam os menos avisados num fosso espiritual.  Por exemplo: "Já rece­beu a segunda obra da graça?", "Você fala em línguas?", "Já foi morto pelo Espírito?"  Cada uma destas questões implica fortemente que só os que seguem na forma de doutrina deles são verda­deiramente espirituais.  Portanto, a norma deles de medir a espiritualidade é a experiência.

 

Pedro ensina-nos uma lição a respeito da experiência que faremos bem em prestar atenção.

 

"Mas também eu procurarei em toda a ocasião que depois da minha morte tenhais lembran­ça destas coisas.

"Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas: mas nós mesmos vimos a Sua majestade.

"Porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória Lhe foi diri­gida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido.

"E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo;

"E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis, em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça em vossos corações" (II Pe.1:15-19).

 

Em outras palavras, Pedro tinha passado por a maior de todas as experiências quando ele e os outros apóstolos testemunharam a transfiguração.  Foi-lhes literalmente dada uma antevisão da glória vindoura que o Senhor terá no reino.  Apesar disso, temendo que os seus ouvintes pudessem começar a seguir a experiência, ele instrui-os sabiamente dizendo-lhes que tenham por muito certa a palavra da profecia, que farão bem em observar.

 

Como sabemos, os profetas do Velho Testamento tinham profetizado há muito tempo as glórias do reino.  Conseqüentemente, Pedro queria que a fé deles repousasse no fundamento seguro da Pala­vra de Deus, e não nas experiências dele, ou de quem quer que fosse.  Às vezes a experiência é um guia incerto que já levou muitos a se desviarem.

 

Uma vez que é contrário à natureza de Deus mentir, se colocamos a nossa fé na Sua Palavra, podemos estar certos de que o que foi escrito sempre será cumprido no tempo designado.  Em épocas passadas, Deus revelou ao profeta Daniel que existiriam três grandes reinos gentios mundiais que se suce­deriam – o Império Babilônico, Medo-Persa e Grego.  Como sabemos, a história secular prova a exatidão desta predição.  Assim sendo, colocaremos a nossa confiança na duvidosa palavra e experiências dos homens ou na infalível Palavra de Deus, que é a âncora das nossas almas?

 

O Apóstolo Paulo avisou-nos de que nos últimos dias surgiriam entre nós enganadores, enga­nan­do e sendo enganados. "E, como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes resistem à verdade, sendo homens corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé" (II Tm.3.8).  Janes e Jambres foram os mágicos que se opuseram a Aarão e Moisés.  Quando Aarão transformou sobrenaturalmente a sua vara em serpente, o Faraó convocou os seus realizadores de milagres, que transformaram as suas varas em serpentes para o espanto de todos os pre­sentes.  Mas a falsidade destes malfeitores egípcios foi rapidamente desmascarada.  E o após­tolo torna muito claro que os enganadores da atualidade também serão desmascarados.

 

A defesa contra esta forma de engano situa-se no conhecimento do apostolado e mensagem distin­tos de Paulo.  De fato, neste mesmo contexto, Paulo instrui Timóteo: "Tu, porém, tens seguido a minha doutrina, modo de viver, intenção, fé, longanimidade, caridade, paciência" (II Tm.3:10).  Em resumo, se seguirmos o que Paulo ensinou sobre estes assuntos, e observarmos o seu modo de vida, não cairemos na rede fraudulenta de Satanás.

 

Os Dons de Sinais do Período de Atos

 

"Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes… Ora há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo" (I Co.12:1,4).

 

É importante diferenciar entre os dons de sinais temporários do período de Atos e os que são classificados como dons espirituais permanentes.  Deve ser aqui recordado que há ocasiões em que também temos de manejar bem as epístolas de Paulo.  Apesar de o apóstolo se dirigir a ambos os grupos de dons nas suas epístolas, só os dons espirituais permanentes continuam em vigor hoje.  Estes dons compreendem o ministério, o ensino, o aconselhamento, socorros, governos, administrações, etc.

 

Os dons de sinais sobrenaturais temporários, tais como sabedoria, conhecimento, fé, cura, mila­gres, profetizar, discernir espíritos, línguas, e interpretação de línguas, cessaram com o encer­ramento do período transicional.  Assim, quando Paulo declara aos coríntios: "Acerca dos dons espirituais [Gr. pneumatika, espirituais], não quero, irmãos, que sejais ignorantes" (I Co.12:1), ele tem principalmente em mente a correção dos mal-entendidos, concepções erradas e abusos relacionados com os dons de sinais milagrosos.

 

Por exemplo, um determinado número de coríntios estava exigindo veemente falar em línguas – e todos ao mesmo tempo – sem a presença de um intérprete.  Havia tanta confusão com a prática que Paulo concluiu que aqueles de pouca instrução e os incrédulos presentes pensariam que eles tinham ficado loucos (I Co.14:23).  A fim de resolver o problema, o apóstolo instruiu-os do seguinte modo: Só dois ou três deveriam exercitar o dom de línguas durante o decorrer de uma reunião.  Além disso, para que tudo fosse feito de forma ordenada, apenas falaria um de cada vez, e somente se houvesse intérprete.  Se não houvesse um intérprete presente deveriam ficar em silêncio (I Co.14:27-28).

 

Segundo o evangelho de Paulo, havia um propósito duplo para os dons de sinais durante a parte inicial desta dispensação.  Em primeiro lugar, eram um sinal para Israel de que Deus estava fazendo algo novo e diferente entre os gentios (Rm.11:11; 15:20; cf. I Co.14:21-22).  Deus sempre falou à Sua nação escolhida através de sinais e maravilhas.  Além disso, a nação esperava estes sinais da mão de Deus (Jz.6:12-18; cf. Is.8:18).  Em segundo lugar, estas manifes­tações milagrosas atraíam a atenção para esta nova criação chamada a Igreja, o Corpo de Cristo.  Estes dons sobrenaturais quase deram credibilidade instantânea ao apos­tolado de Paulo e aos outros membros do Corpo de Cristo que realizavam estas maravilhas (At.19:11-20; 28:1-10; I Co.14:25).  É lógico que uma vez cumprido este propósito duplo, pela graça de Deus, estas manifestações milagrosas deram lugar às três graças exaltadas.  Ainda falaremos mais sobre isto neste estudo.

 

Durante o período de Atos, os dons de sinais eram normalmente dispensados coletivamente pelo Espírito de Deus (At.2:1-7; 4:28-35; 10:44-46).  Estes dons de sinais não eram resultado de pedi­dos de oração, nem eram dados com base na espiritualidade dos crentes.  Pelo contrário, eram dados liberalmente, sem restrições, a todos os crentes de acordo com a soberana vontade de Deus (I Co.12:4,7,11).  Portanto, eles recebiam poder para realizar estas maravilhas simplesmente porque esse era o modo de Deus operar naquele período.

 

A posse destes dons nada tinha a ver com a medida da fé ou desempenho deles.  Certamente, os crentes de Corinto estavam longe de serem espirituais; de fato, muitos deles viviam carnalmente.  Apesar disso, foram-lhes dadas estas manifestações milagrosas e em alguns casos possuíam até mais de um dom (I Co.12:31; cf. 14:23-24,26).

 

* Marqueteiro (ou marketeiro), ou Spin Doctors (em inglês), segundo os principais dicionários brasileiros ("Aurélio" e "Houaiss"), é uma "pessoa ou profissional do marketing".  O termo, todavia, é quase sempre utili­zado pela imprensa para designar especificamente aqueles profissionais que fazem "marketing político".  Neste caso trata-se de marketing religioso.  A expressão traz uma carga depreciativa.  O nome é dado aos que procuram manipular a mensagem.

 

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