Os Dons e Sinais Sobrenaturais do Período de Atos
por Paul. M. Sadler


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Capítulo 3

 

"Porventura, ignorais, irmãos (pois falo aos que conhecem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem toda a sua vida?" (Rm.7:1).


Os comentaristas bíblicos gostam muito de debater se Paulo aqui se refere à Lei Romana ou à Lei de Moisés, mas o ponto de vista do apóstolo é o mesmo nos dois casos.  A morte termina com todos os relacionamentos terrestres, incluindo a relação do homem com a Lei!  Para ilustrar esta questão Paulo cita este exemplo:

 

"Ora, a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará da lei conjugal" (Rm.7:2).


A morte termina com todos os relacionamentos, incluindo a relação entre o marido e a esposa.  Paulo vai ilustrar nosso relacionamento com a Lei de Moisés, comparando-a com a relação entre o homem e sua esposa.

"De sorte que será considerada adúltera se, vivendo ainda o marido, unir-se com outro homem; porém, se morrer o marido, estará livre da lei e não será adúltera se contrair novas núpcias.  Assim, meus irmãos, também vós morrestes relativamente à lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerdes a outro, a saber, aquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que frutifiquemos para Deus" (Rm.7:3-4).


Aqui vemos o ponto principal da ilustração de Paulo.  Quando éramos incrédulos, éramos casados com a Lei e não podíamos estar casados com Cristo enquanto estivéssemos presos à Lei.  Mas como a morte termina com o relacionamento entre a esposa e o marido, assim a morte também terminou com o relaciona­mento entre crentes e a Lei de Moisés!  Como aprendemos em Romanos 6 quando Cristo morreu, Ele morreu para a Lei, e nós morremos com Ele!


Pode ser que se tenha curiosidade em saber por que alguém desejaria que o seu relacionamento com a Lei de Deus acabasse, então vamos ampliar a ilustração de Paulo.  Imagine uma mulher casada com um homem que está constantemente apontando suas falhas.  Nada que ela faça é bom o bastante.  Ela não mantém a casa perfeita.  Ela não disciplina as crianças o suficiente.  Ela é uma cozinheira terrível!  Debaixo da lei, ela não tinha escolha.  Sob estas críticas constantes, ela apenas podia ficar lá sentada e agüentar!

 
Esta é uma perfeita descrição da Lei!  A Lei está constantemente apontando as nossas falhas.  Somos muito avarentos!  Não honramos nossos pais!  Estamos sempre camuflando a verdade quando falamos desta maneira!  Como incrédulos debaixo da Lei, não tínhamos escolha.  Sob estas críticas constantes, apenas podíamos ficar sentados e agüentar!  Esta exigência pela perfeição (Josué 2:10-11) é o que finalmente nos levou a Cristo.


Mas uma vez que somos salvos, a Lei não se torna menos exigente.  Ela continua a apontar as nossas falhas. Mas graças a Deus, não temos mais que apenas ficar sentados e agüentar!  Nós nos tornamos mortos "à Lei, por meio do Corpo de Cristo" e a morte termina com todos os relacionamentos!  Como crentes debaixo da graça, estamos livres da Lei que continua a exigir perfeição de seres ainda imperfeitos, uma tirania que leva a um sentimento de derrota e desespero.

 

Mas como nos tornamos mortos para a Lei?  Paulo diz que foi "pelo corpo de Cristo", isto é, por Seu corpo físico. Mas aqui precisamos tomar cuidado.  Não nos tornamos mortos para a Lei pelo nascimento do corpo físico de nosso Senhor, porque Ele nasceu debaixo da Lei (Gl.4:4; Lc.2:21-24).  Também não nos tornamos mortos para a Lei pela vida adulta do corpo do Senhor, pois como homem Ele obedeceu a Lei e ensinou outros também a obedecê-la (Mt.8:4; 23:1-3).  Não, foi pela morte física do corpo do Senhor que nos tornamos livres da Lei.  Quando Ele morreu, morreu para a Lei e nós morremos com Ele!

 

E a Lei morreu para nós, porque Colossenses 2:14 diz que quando Cristo morreu, Ele encravou a Lei na Sua cruz.  Então nos tornamos livres para estar casados com outro, "aquele que ressuscitou dentre os mortos", o Senhor Jesus Cristo!  Se alguém estiver imaginando porque se teria o desejo de estar casado com o Senhor, a resposta seria "para que frutifiquemos para Deus".

 

Um dos propósitos do casamento é ser "fecundo" (Gn.1:22).  Quando éramos casados com a Lei como incrédulos, não podíamos trazer frutos de boas obras para Deus (Rm.6:21).  Nossas obras de justiça eram consideradas obras de justiça própria (Is.64:6) e Deus rejeita as obras de justiça própria.

 

Debaixo da lei, se um homem morresse sem filhos, seu irmão poderia se casar com a esposa dele e ter filhos que o falecido irmão não pôde ter (Dt.25:5-6).  Do mesmo modo, agora que somos casados com Cristo, podemos trazer "fruto para a santificação" que o nosso casamento com a Lei não podia produzir em nós (Rm.6:22).  Agora, quando fazemos boas obras, elas são consideradas boas obras por Deus e podemos ser frutíferos "em toda boa obra" (Cl.1:10; Ef.2:10; Tt.2:14). 

 

Como se sabe, debaixo da Lei se um homem se recusasse a casar-se com a esposa de seu irmão, ela descalçava sua sandália e lhe cuspia na face (Dt.25:7-10).  Quando o Senhor recusou permitir que Israel O tornasse Rei antes da Sua morte (Jo.6:15), parecia que Ele estava se recusando a casar-se com ela e levantar sementes ("suscite descendência") onde a Lei tinha falhado.  Mas quão precioso é saber que quando eles O desnudaram e cuspiram em Sua face no Calvário, Deus foi capaz de usar isto para levantar frutos espirituais em Israel e em nós.


"Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte" (Rm.7:5).

 

Quando éramos incrédulos, estávamos em constante movimento, mas como aprendemos em Romanos 6, cada gesto que fazíamos, era pecado aos olhos de Deus.  E Paulo diz que era a "Lei" que dava movimento ao pecado. Devido à natureza caída que herdamos de Adão, quando somos proibidos de fazer alguma coisa pela Lei, isso apenas nos motiva a querer fazer mais ainda.  Durante a época da Proibição (isto é, a Lei Seca: durante os anos 1920 nos EUA, era proibida a fabricação de bebidas alcoólicas), o consumo na verdade cresceu, porque a lei estimulava a natureza caída dos homens a querer violá-la.


E a Lei de Moisés funciona do mesmo modo.  A maioria das pessoas pensa que a Lei enfraquece o pecado, mas Paulo diz "a força do pecado é a lei" (I Co.15:56).  A maioria das pessoas pensa que a Lei faz o pecado diminuir, mas Romanos 5:20 diz que "a Lei entrou para que a ofensa abundasse".


Porque Deus daria uma Lei que fortalecesse o pecado e o fizesse abundar?  Para fazer o homem ver a sua necessidade de um Salvador!  Este era o propósito da Lei.

 

É natural ligar o movimento com a vida, mas assim como o homem que está "morto em pecados" pode andar em carnalidade (Ef.2:1-3), também incrédulos espiritualmente mortos podem produzir o gesto de justiça própria com boas obras.  Mas quando eles o fazem estão realizando a justiça sem a intenção verdadeira.  Eles não produzem frutos reais que Deus possa aceitar.  Uma árvore pode somente trazer frutos "da sua espécie" (Gn.1:12), então frutos trazidos por um incrédulo morto espiritualmente pode somente ser "frutos para a morte".


"Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra" (Rm.7:6).


Quando vemos a palavra "libertados" pensamos em como a salvação nos libertou de coisas como o "poder das trevas" (Cl.1:13).  Mas também precisamos ser libertados da condenação da Lei!  A palavra grega para "libertados" aqui, é mais freqüentemente traduzida por "destruída", então Paulo está dizendo que fomos libertados da Lei pela destruição da Lei e a nossa relação com ela.  Como "estávamos mortos para aquilo que estávamos sujeitos", somos então livres para casar com Cristo e servir a Deus "em novidade do Espírito, e não na caducidade da Lei".


Qual é a diferença?  Quando os nazistas rodeavam Paris, foi dito a seus cidadãos para ficar de pé nas ruas e aclamá-los, uma ordem que eles obedeceram por medo do que poderia ser feito com eles se não obedecessem.  Mas quando os aliados libertaram Paris, a mesma aclamação foi motivada pelo poder que estava redimindo-os dos seus inimigos.  Do mesmo modo, o incrédulo faz boas ações pelo medo do que Deus fará com ele se não o fizer.  Mas, uma vez salvos pela graça, as mesmas boas ações são motivadas por um amor verdadeiro para com o nosso Redentor.
 

"Que diremos, pois?  É a lei pecado?  De modo nenhum!  Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás" (Rm.7:7)


Paulo sabe que seus leitores ficarão atribulados com a afirmação de que a Lei dá movimento ao pecado, então ele se apressa a adicionar que a Lei, por ela mesma, não é pecado.  Ele não saberia o que o pecado era sem a Lei "porque pelo conhecimento da Lei é que vem o conhecimento do pecado" (Rm.3:20).  E se ele nunca tivesse conhecido o pecado, nunca poderia chegar a conhecer Cristo, porque "a Lei nos serviu de aio para nos trazer a Cristo, para que fôssemos justificados pela fé" (Gl.3:24)


A Lei é como uma máquina de raio X ou a de tomografia de ressonância magnética, ambas podem revelar o que você tem de errado, mas nenhuma delas pode fazer qualquer coisa para resolver o problema.  Do mesmo modo, a Lei pode mostrar ao pecador o seu pecado, mas não tem poder algum para salvá-lo dele.  Na vida do crente, a Lei pode ser um excelente termômetro, revelando se a temperatura do pecado é alta, ou não, na vida dele.  Mas não tem nenhum poder para agir como termostato (regulador de temperatura), isto é, não tem poder algum para regular o pecado.


"Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda sorte de concupiscência; porque, sem lei, está morto o pecado.  Outrora, sem a lei, eu vivia; mas, sobrevindo o preceito, reviveu o pecado, e eu morri" (Rm.7:8-9).


Até aqui Paulo esteve falando sobre a Lei e seu efeito sobre "nós" (vs.4,5,6) quando éramos ainda incrédulos.  Paulo agora muda para o pronome pessoal "eu" indicando que está próximo de dar um testemunho pessoal com respeito ao seu relacionamento com a Lei depois que ele foi salvo.


Paulo estava "vivo sem a Lei", isto é, ele foi salvo e se tornou espiritualmente vivo como todos nós nos tornamos, pela graça através da fé, sem as obras da Lei (Rm.3:20,28).  A graça ensinou-o a negar a impiedade e as paixões mundanas, e a viver sua vida "sensata, justa e piedosamente" (Tt.2:11-12) e ele evitou o mal com todo o vigor e entusiasmo de um filho de Deus recém salvo.

 

Então, como todos nós, ele pensou que a Lei o ajudaria a lidar melhor com o pecado.  Mas "quando o mandamento veio", isto é, quando ele introduziu a Lei na sua vida para tentar ajudá-lo com o pecado, ela teve o efeito oposto.  Como ele se expressa: "quando o mandamento veio, o pecado reviveu".


Temos visto que a Lei incita o incrédulo a pecar e faz com que eles vejam a sua necessidade de um Salvador.  Mas a Lei tem o mesmo efeito no crente!  Quando somos salvos, recebemos do Senhor uma nova natureza, mas não perdemos a velha natureza pecaminosa que quer pecar muito mais quando é mandada não pecar.

Então quando Paulo se colocou debaixo da Lei, a Lei continuou a fazer o que ela fazia antes de sermos salvos, dar movimento ao pecado e "reviveu o pecado".  O pecado adormeceu quando Paulo foi salvo pela graça, mas, ele inadvertidamente o reviveu com a aplicação da Lei.


Como Paulo se expressa, o pecado aproveitou-se da Lei.  Quando um orador público diz: "Eu gostaria de aproveitar esta ocasião para...", ele quer dizer que vai aproveitar a oportunidade para se dirigir a uma platéia com um propósito diferente daquele pelo qual eles se reuniram.  Isto às vezes é feito por algumas celebridades quando recebem um prêmio e aproveitam a grande audiência que a cerimônia tem na mídia para fazer uma declaração política.  No nosso texto, Paulo não introduziu a Lei na sua vida espiritual para operar nele com "toda a sorte de concupiscência", mas a Lei se aproveitoupara fazer exatamente isso!


Quando Paulo foi salvo "sem Lei, está morto o pecado".  Mas quando ele convidou a Lei para dentro da sua vida, o pecado reviveu e então mudou tudo.  Ele "morreu", isto é, ele morreu a morte espiritual sobre a qual falamos antes, onde a experiência cristã do crente murcha e morre.  (Veja os comentários sobre Romanos 6:16.)


"E o mandamento que me fora para vida, verifiquei que este mesmo se me tornou para morte" (Rm.7:10).


Paulo sabe que seus leitores serão atribulados com sua afirmação adicional que a Lei dá ocasião à carne e então ele se apressa a afirmar que a lei foi dada "para vida".  Repetidas vezes a Bíblia declara que se um homem pudesse manter a Lei de forma perfeita, Deus o recompensaria de bom grado com a vida eterna (Lv.18:5; Lc.10:25-28; Rm.2:6-7; 10:5).  Mas as palavras "todo" e "permanecer" em Gálatas 3:10 indicam que Deus exige 100% de obediência à Lei, 100% do tempo!   Visto que isto é algo que nenhum incrédulo conseguirá, a Lei ficou conhecida como o "ministério da morte" (II Co.3:7).


Mas quando Paulo aplicou a Lei à sua vida depois que foi salvo, ele aprendeu o que nós todos aprendemos quando seguimos o seu exemplo: não temos mais capacidade de guardar a Lei de modo perfeito agora que somos salvos do que quando estávamos perdidos!  Ele logo descobriu que todos os seus sinais vitais estavam "zerados" e que precisava acordar do sono desta "morte" (cf. Ef.5:14).


"Porque o pecado, prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento, me enganou e me matou" (Rm.7:11).


Imagine que um amigo seu toma um remédio que pensa que está salvando a sua vida, mas depois fica sabendo que ao invés disto, estava o matando!  É o mesmo caso com o crente e a Lei.  Ele pensa que ela o ajuda, mas na verdade está o matando!  É desta forma que o pecado enganava Paulo e engana a nós todos!


"Por conseguinte, a lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom" (Rm.7:12).


Paulo também diz que a Lei é "boa" em I Timóteo 1:8, mas lá ele explica que ela é somente boa "se alguém dela se utilizar de modo legítimo".  Paulo então continua a explicar que a "lei não é dada para o homem justo", isto é, para os crentes.  O único uso legítimo da Lei é trazer à convicção do pecado a "transgressores e rebeldes", para levá-los ao Salvador.

 

"Acaso o bom se me tornou em morte?  De modo nenhum!  Pelo contrário, o pecado, para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno" (Rm.7:13)


Aqui Paulo se apressa a adicionar que não foi a Lei que o matou, mas sim o pecado operando pela Lei.  Paulo sabe que os homens gostam de achar falhas nas leis que os condena.  Quando alguém recebe uma multa por excesso de velocidade, não é porque estava correndo muito rápido, é lógico, é porque o limite de velocidade era muito baixo!  Nós não estamos errados, é a lei que está errada!  Aqui, Paulo se apressa para explicar que não estava dizendo que havia alguma coisa errada com a Lei de Moisés.

 

Assim como a Lei fez o pecado piorar nos incrédulos, a Lei também faz o pecado ser "sobremaneira maligno" no crente.  É claro que no incrédulo Deus é capaz de tirar proveito do poder da Lei para fazer o pecado pior, usando-o para levá-lo a Cristo.  Mas Deus pode tirar proveito desse poder quando a Lei torna o pecado pior no crente?  Acreditamos que Deus pode tirar proveito do efeito da Lei na vida do crente de dois modos.


Primeiro, já ouvimos dizer que quando alguns pais pegam um dos seus filhos fumando, eles fazem com que este fume um cigarro atrás do outro – até ele chegar a vomitar e nunca mais querer fumar de novo!  Esta é uma técnica que Deus usou freqüentemente com Israel.  "Vinde a Betel e transgredi" soa como uma coisa estranha para Deus dizer (Amós 4:4), mas Ele disse isso somente depois de ter constantemente avisado-os para não pecar (Sl.81:11-13; Ec.11:9; Ez.20:39; Mt.23:29-32).  É somente quando o homem se faz de surdo para o chamamento de Deus de se arrepender que lemos coisas como "Deus os entregou às paixões infames" (Rm.1:24,26,28).  Deus guarda esta tática severa por último, mas finalmente a emprega na esperança que os homens sentirão repugnância pela sua própria pecaminosidade.


Este então é o primeiro modo pelo qual Deus tira vantagem do poder da Lei, para tornar o pecado pior no crente.  Assim como a Lei leva o crente a pecar, eventualmente ele sente nojo da sua conduta depravada.  E o segundo modo no qual Deus tira proveito dos efeitos da Lei na vida do crente, é quando a Lei faz o homem se dar conta de que ela não é resposta para reprimir o pecado em sua vida.

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