Um Guia Para Uma Vida Piedosa
por Ricky Kurth
___________________________________________________________________________________

PARTE II 


"Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões" (Rm.6:12).


Antes de sermos salvos, o pecado reinava em nossas vidas e não da maneira simbólica que os reis de hoje reinam.  Os reis na época da Bíblia eram verdadeiros déspotas e é neste sentido que o pecado reinava em nossas vidas como incrédulos.  É neste sentido que o pecado influenciava inteiramente a nossa vivência!  Naquela época, não tínhamos uma escolha no assunto, uma vez que tudo que fazíamos era pecado.  Mas agora, ainda que o melhor crente possa cair no pecado, não é preciso deixar que o pecado reine nas nossas vidas!


Acreditamos que Paulo menciona o nosso corpo "mortal" aqui para lembrar-nos que enquanto nosso espírito é salvo da morte eterna, o nosso corpo mortal ainda está sujeito à morte física e o pecado acelera a morte!  Por exemplo, a bebedeira constante destruirá nossa saúde.  Quando o pecado avança a nível criminal, tal atividade criminosa aumenta as chances de sermos mortos a tiros pela polícia ou condenados à morte pelos tribunais.  E mesmo se nunca formos pegos e trazidos à justiça, o medo constante de ser preso causa estresse, um contribuinte bem conhecido da pressão alta e doenças do coração.  E este medo de ser pego é algo que afeta até os mentirosos e outros transgressores menores.  Então, não é de se admirar que Paulo afirme em outros lugares, que obedecer aos pais que nos advertem sobre o pecado, promoverá a longevidade (Ef.6:1-3).  E também não é de se admirar que ele mencione nossa mortalidade aqui, pois é para nos encorajar de evitar estas ameaças assassinas comumente conhecidas como pecados.


"Nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniqüidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça" (Rm.6:13).


Quando éramos incrédulos e tínhamos que pecar porque tudo o que fazíamos era pecado, não estávamos nos submetendo ao pecado, porque o submeter sugere que temos uma escolha.  Ao invés disto, estávamos obedecendo a um déspota supremo que tinha controle absoluto sobre o nosso ser.  Mas agora podemos fazer o que não podíamos fazer quando éramos um daqueles que se enquadrava no trecho "não há quem faça o bem", a respeito dos quais Paulo escreve em Romanos 3:12.  Agora podemos nos submeter a Deus.


Antigamente quando os prisioneiros eram forçados a quebrar pedras o dia todo, um prisioneiro que fazia isto não estava se submetendo ao guarda, ele estava obedecendo.  Mas se depois de cumprir a sua pena um ex-condenado decidisse fazer uma visita à prisão e o guarda lhe pedisse para quebrar algumas pedras para ajudá-lo na sua quota diária, ele estaria se submetendo a tal pedido.  É claro que este homem teria que ser maluco para fazer isto!  E o mesmo é verdade de crentes que se submetem a pecar depois de Cristo ter pago a nossa dívida, embora, infelizmente, só nos lembramos disto depois do fato ter ocorrido.

 

Deveríamos preferir submeter-nos a Deus "como ressurretos dentre os mortos".  Mas onde vamos achar um modelo na vida para isto?  Houve oito pessoas que foram ressuscitadas da morte nas Escrituras, mas a Bíblia quase não fala nada das suas vidas depois que foram ressuscitadas.  Talvez isso seja uma omissão proposital da parte de Deus, deixando somente o exemplo pós-ressurreição do Senhor como nosso modelo.  Possa cada um de nós fazer melhor do que Ezequias, que não foi levantado dos mortos, mas a ele foi dado uma nova chance na vida depois de adoecer com uma doença mortal (II Re.20:1-6).  Como é triste ler que "não correspondeu Ezequias aos benefícios que lhe foram feitos" (II Cr.32:24-25).  Que estas palavras não sejam ditas de nós no Tribunal de Cristo, onde será determinado como servimos ao Senhor com a nova vida que foi nos dado à luz de tudo que Ele fez por nós.

 

Sabemos isto sobre a vida depois da morte: de acordo com o folclore somente um fantasma permanece perto da sua antiga "assombração" na tentativa de viver novamente a antiga vida que gozava antes de morrer.  Um homem ressurreto atende à admoestação de Paulo de buscar "as coisas lá do alto" e pensar "nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra" (Col.3:1-2).  Que Deus nos ajude do mesmo modo a esquecer as "coisas que para trás ficam" (Fp.3:13).


"Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça" (Rm.6:14).


Paulo explica aqui a razão do pecado não mais ter domínio absoluto sobre nós, como quando éramos incrédulos: "porque não estais debaixo da lei e sim da graça".  Na dispensação da graça, somente os incrédulos estão debaixo da lei (Rm.3:19; ITm.1:9-10).  "A força do pecado é a lei" (I Co.15:56) e sem ela o pecado não tem nenhuma capacidade de nos dominar, como veremos quando chegarmos a Romanos 7.


"E daí?  Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, e sim da graça?  De modo nenhum!" (Rm.6:15).


Quantas vezes já ouvimos: "Não se pode dizer às pessoas que agora estamos debaixo da graça, porque viverão as suas vidas do jeito que quiserem."  Entretanto, como alguém falou corretamente, a graça muda o nosso "querer"!  Isto é, a graça muda como queremos viver.  O Senhor disse a Bartimeu: "Vai", mas lemos em seguida que "ele imediatamente seguia Jesus estrada fora" (Mc.10:52).  Ele estava sendo desobediente?  Não!  Agora o seu caminho era o caminho do Senhor!  E isto deveria ser o desejo de todo filho de Deus, comprado com o Seu sangue: seguir o Senhor Jesus no Seu caminho.


Como podemos chegar a pensar em continuar a pecar depois que Cristo morreu por nossos pecados?  O assassino da Máfia sabe que não há como sair do crime organizado senão pela morte.  Mas, e se o seu irmão gêmeo se voluntariasse para morrer a fim de enganar a Máfia, fazendo-a pensar que o assassino havia morrido?   Tal sacrifício nobre seria grandemente desonrado se o irmão continuasse a servir o crime organizado.  Do mesmo modo, o mais nobre Sacrifício da história é desonrado quando continuamos a pecar depois de o Senhor ter morrido para nos salvar dos nossos pecados.


"Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse mesmo a quem obedeceis sois servos, seja do pecado para a morte ou da obediência para a justiça?" (Rm.6:16).
 

No começo dos anos 60 havia um programa na TV chamado Rainha por um Dia, no qual a mulher com a his­tó­ria mais merecedora era coroada, vestida de veludo vermelho e tratada como uma rainha, com direito a uma noite de diversão totalmente paga acompanhada por seu marido.  Ela era, na realidade, uma rainha do nada e de ninguém, mas por uma noite era tratada como se fosse uma rainha de verdade.  Semelhantemente, o peca­do não é mais nosso mestre, mas quando nós nos submetemos a ele, fazemos dele o nosso rei e somos seus servos por aquele momento de nossas vidas.


É importante que se diga algo sobre a "morte" mencionada aqui.  Como muitas palavras bíblicas, a palavra "morte" tem vários significados.  Há a morte física, é claro, a morte espiritual (Ef.2:1) e a "segunda morte" (Ap.20:14).  Em cada um destes casos a palavra tem a idéia de separação, porque na morte espiritual, a alma e o espírito são separados do corpo (Gn.35:18), na morte espiritual a alma e o espírito são separados de Deus (Ef.2:1;4:18) e a morte eterna a alma e o espírito são separados de Deus por toda eternidade (Ap.20:15).


Mas aqui em Romanos, há uma coisa que gostamos de chamar de morte cristã, uma condição onde todos os sinais vitais do crente estão "zerados" e não há evidência da vida espiritual.  É o pecado que tem este efeito mortal nas nossas vidas espirituais.  Mas quando isso ocorre, não precisamos ser salvos de novo, simplesmente temos que acordar. É para os crentes que Paulo diz: "Desperta tu que dormes e levanta-te de entre os mortos..." (Ef.5:14).  Crentes que morreram em pecado devem tornar "à sabedoria" e não pecar (I Co.15:34).


Também deve ser dita alguma coisa sobre a "justiça", que é tida como sendo a recompensa pela obediência.  Todo crente verdadeiro sabe que "com o coração se crê para justiça" (Rm.10:10) e esta justiça não pode ser obtida pelas nossas obras (Rm.4:5).  Mas isto é dito da nossa posição de justiça diante de Deus, "o dom da justiça" que recebemos quando cremos em Cristo (Rm.5:17).  Quando Paulo fala aqui da "obediência para a justiça" ele se refere à justiça prática que vem da obediência a Deus (I Tm.6:11; II Tm.2:22; 3:16).


"Mas graças a Deus porque outrora escravos do pecado, contudo viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues, e, uma vez libertados do pecado fostes feito servos da justiça" (Rm.6:17-18).


Quando éramos incrédulos, éramos "escravos do pecado", incapazes da "obediência para a justiça".  Mas quando fomos salvos nos tornamos "servos da justiça".  Enquanto que agora podemos escolher servir ao pecado ou a justiça, somos, sim, servos da justiça, livres para sempre da tirania do pecado.


"Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne.  Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para maldade, assim oferecei agora os vossos membros para servirem a justiça para a santificação" (Rm.6:19).


Falar "como homem" significa dar uma ilustração do mundo dos homens (Gl.4:15) e a enfermidade da nossa carne que Paulo menciona aqui é que muitas vezes precisamos de tais ilustrações para entender a verdade divina.  Aqui Paulo hesita em comparar o modo que vivemos para o Senhor com o modo que costumávamos viver para o pecado e então qualifica a comparação com esta ressalva.  Entretanto, a comparação é tão boa que ele não ousou ignorá-la.  A palavra "assim" (usada duas vezes neste versículo) indica que devíamos servir ao Senhor agora como costumávamos servir o pecado, isto é, com toda nossa força!  Devíamos servir ao Senhor com tanto entusiasmo quanto costumávamos servir a nós mesmos e nossos próprios interesses e desejos.


"Porque, quando éreis escravos do pecado, estáveis isentos em relação à justiça" (Rm.6:20).


Se devemos viver para o Senhor "assim" como vivíamos para nós mesmos, Paulo está colocando diante de nós um poderoso desafio, porque quando servíamos o pecado, o servíamos exclusivamente, sendo absolutamente "isentos em relação à justiça".  Servir ao Senhor desta maneira agora significaria servi-Lo exclusivamente, totalmente livres do pecado.  Nada menos que este objetivo elevado deveria ser o expressivo desejo de nossos corações.

 

"Naquele tempo, que resultado colhestes?  Somente as cousas de que, agora, vos envergonhais, porque o fim delas é morte" (Rm.6:21).


Pela ordem de Deus, uma árvore frutífera produz frutos "segundo a sua espécie" (Gn.1:11).  "Toda árvore má produz frutos maus" (Mt7:17) e o fim deste tipo de fruto no incrédulo é pecado e morte.

"Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna" (Rm.6:22).

 

Agora que não pertencemos mais ao pecado, mas ao invés disto a Deus, o "fruto de justiça" (Fp.1:11) que produziremos não é mais considerado auto-justiça pecaminosa, mas, sim, "santificação" que termina em "vida eterna".


Mas como a vida eterna pode ser o "fim" do fruto da santificação quando Paulo claramente ensina que é "pela graça" que recebemos a "vida eterna" (Tt.3:7)?  Ah, aqui o apóstolo fala da vida eterna que podemos aproveitar nesta vida.  Isto é semelhante ao que Paulo diz de nós que já possuímos a vida eterna: podemos tomar "posse da vida eterna" por combater o bom combate da fé e por investir nossas finanças na obra do Senhor e do Seu povo (I Tm.6:11-12,17-19).  Crentes que vivem somente para si mesmos e gastam seu dinheiro de forma egoísta, estão tomando posse desta vida.

 

"Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm.6:23).


Este é um versículo que freqüentemente usamos quando compartilhamos o evangelho com incrédulos, mas Paulo, na verdade, não está se dirigindo ao incrédulo neste capítulo, mas sim, falando aos crentes.  Isto não significa, entretanto, que não devemos usar este versículo quando falamos de Cristo com os outros, porque o princípio que Paulo está citando é verdadeiro.  O salário que o incrédulo ganha por seu pecado é a morte física, a espiritual e a morte eterna e aceitar a vida como um presente de Deus é sua única esperança.  O ponto de vista de Paulo, entretanto, é ensinar-nos que o pecado continuará a ter um efeito amortecedor em nossas vidas até mesmo depois de sermos salvos.  Mas, graças a Deus, Seu presente para com os crentes é que agora podemos tomar posse da vida eterna que é a nossa única esperança de desfrutar a rica e gratificante vida que Ele reserva para nós como Seus filhos.  Possa isto ser o desejo de nossos corações também!

Parte I - Parte III - Parte IV - Parte V - Parte VI

___________________________________________________________________________________

Voltar