Um Guia Para Uma Vida Piedosa
por Ricky Kurth
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PARTE  IV

 

 

"Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado" (Rm.7:14).

 

O reconhecimento de Paulo que foi "vendido à escravidão do pecado" levou alguns a acreditarem que ele se refere nesta passagem à sua antiga vida de incrédulo.  Entretanto, qualquer pessoa que comete o pecado se vende ao pecado (I Re.21:20,25; II Re.17:17; Is.50:1; 52:3).  Graças a Deus, nós, que somos salvos, fomos remidos ou comprados de volta do pecado pelo sangue de Cristo (Ef.1:7).  Porém, ainda se espera "o dia da redenção" (Ef.4:30) que acontecerá no Arrebatamento, um dia no qual nossos corpos serão remidos (Rm.8:23).  Até aquele dia, as nossas almas são remidas, mas os nossos corpos permanecem vendidos "à escravidão do pecado", como Paulo diz aqui em Romanos 7:14.  Sob a análise microscópica da Lei, até mesmo a carne salva não consegue passar pela inspeção de Tiago 2:10-11 e deve ser lembrado que aqui em Romanos 7 Paulo está descrevendo o que ele experimenta quando se coloca debaixo da Lei de Moisés.

 

"Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto" (Rm.7:15).


Neste versículo temos que ter cuidado para não atribuir o significado mais comum à palavra "compreender".  Geralmente, quando compreendemos alguma coisa, isto significa que a aceitamos, mas este não pode ser o significado aqui, porque se Paulo não permitiu que ele mesmo pecasse, não pecaria!  Outro significado secundário da definição da palavra "permitir" é "aprovar".  O Senhor disse aos perversos advogados da Sua época: "e aprovais com cumplicidade as obras dos vossos pais" (Lc.11:48), isto é, os seus ancestrais que tinham matado os profetas (Lc.11:45-48).  Aqui a palavra "permitir" não pode significar permitir, porque os advogados não tinham nascido ainda e não estavam em posição para permitir ou contestar a permissão das obras assassinas dos seus ancestrais.  A palavra "permitir" aqui, obviamente significa aprovar e este também é o significado do nosso texto.


E então Paulo está dizendo que quando ele se coloca debaixo da Lei, ele comete pecados os quais ele não aprova.  Ele preferiria fazer coisas boas, mas termina cometendo os pecados que ele odeia.  Enquanto alguns observam que isto é evidência adicional que Paulo está falando dos seus dias como incrédulo, nós sugeriríamos que como a maioria dos incrédulos, Saulo de Tarso não odiava seus pecados.  Embora seus pecados fossem mais da natureza de orgulho e justiça própria, ele amava-os muito, como os pecadores carnais amam os pecados da sua carne.  É o crente que odeia o pecado que ele acaba cometendo e que quer fazer as coisas boas que acha tão difícil realizar debaixo da Lei.
 

"Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa" (Rm.7:16).


A palavra "consinto" em português significa "ter uma mesma mente".  A palavra no grego significa dizer uma mesma coisa.  Portanto, Paulo está dizendo que, se quando ele pecar estiver fazendo o que não quer fazer, o simples fato que ele não quer pecar é a prova que ele concorda com a bondade e santidade da Lei.
 

"Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim" (Rm.7:17).


Você sente revolta quando um criminoso não é punido por um crime por que alega que ele tem "personalidade dupla" e não deve responder por suas ações?  Embora temos certeza que esta doença mental existe, lembramos da história de um criminoso que disse ao juiz que ele não tinha roubado a mercadoria, as suas mãos eram culpadas do crime.  O juiz sabiamente respondeu: "Então, eu sentencio as suas mão a um ano de prisão.  O resto de você está livre para ir com elas – ou não!"


Mas aqui Paulo não está se envolvendo com o mesmo tipo de transferência de culpa que aconteceu no Éden, quando Adão culpou Eva e até o próprio Deus – pelo seu pecado e Eva culpou a serpente.  Paulo não está tentando se esquivar da culpa, mas ao invés disto explica porque um crente ainda peca.  Até o Arrebatamento, o pecado continuará a habitar nos crentes e continuará a fazê-los tropeçar, especialmente quando estimulados e fortalecidos pela Lei.  Mas os pecados no crente são "obras da carne" (Gl.5:19), não as obras do próprio crente.

 

"Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo" (Rm.7:18).


Sabemos que não habita bem nenhum na carne do incrédulo, mas é importante lembrar que quando somos salvos, Deus não retira a nossa natureza carnal e não fará isto até o Arrebatamento.  Mas "querer" fazer o bem está presente conosco, porque Paulo diz aos crentes que "Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (Fp.2:13).


Quando Paulo diz que ele não conseguia efetuar o bem, isto não concorda com o que lemos da sua vida de modo geral no Livro de Atos ou nas suas epístolas, as quais nos retratam um homem muito dedicado e consagrado a Deus.  Por isso sabemos que ele está falando da sua experiência debaixo da Lei.  É por causa disto que na Bíblia que leva seu nome, Dr. Scofield deu o título a esta passagem de: "A luta entre as duas naturezas debaixo da Lei".
 

"Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço" (Rm.7:19).


Repetindo o que escrevemos antes, isto só pode ser a experiência de Paulo como crente debaixo da Lei.  Já mostramos que a Lei é uma arma totalmente ineficaz na luta do crente com o pecado.


A Lei certamente parece como algo que ajudaria com o pecado.  Mas por outro lado, a gasolina é um líquido e parece que seria bom para extinguir um fogo.  Na realidade, sabemos que a gasolina é um combustível e somente faria o fogo piorar.  Semelhantemente, uma Lei que condena o pecado parece com algo que seria bom usar contra o pecado na vida do crente.  Mas na realidade, devido a nossa natureza caída, só faz o pecado piorar, como já discutimos antes.
 

"Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim" (Rm.7:20).


O leitor cuidadoso das Escrituras certamente observará que neste versículo Paulo repete a verdade que ele repartiu conosco no versículo 17.  Isto ocorre porque este versículo é freqüentemente esquecido, mas, no entanto, é de importância fundamental.  Paulo está ansioso que nós, sendo crentes, entendamos que quando pecamos, não somos nós que pecamos!


Depois de Paulo falar aos coríntios sobre fornicadores, bêbados e pessoas avarentas, ele acrescenta "e tais eram alguns de vocês" (I Co.6:9-11).  Mas como Paulo podia usar o verbo no tempo passado aqui, quando alguns dos coríntios ainda estavam vivendo em fornicação (I Co.5:1), bebedices (11:21) e estavam cobiçando os dons espirituais uns dos outros (12:15-31)?  A resposta é que não era mais os coríntios que estavam fazendo estas coisas, mas o pecado que habitava neles.  E como os coríntios, a nova pessoa que Deus fez de cada um de nós em Cristo é incapaz de pecar e Deus não quer que nós, como crentes, nos sintamos culpados pelos pecados cometidos através do pecado que habita em nós.


O sentimento de culpa é uma emoção poderosa.  Estudos comprovam que uma grande parte das doenças mentais mais severas pode ser relacionada a sentimentos devastadores de culpa.  Como gostaríamos de sussurrar as palavras confortantes do evangelho nos ouvidos de todas as pessoas, crentes ou incrédulos, que foram levadas a doenças mentais pelo sentimento de culpa.  Como gostaríamos de lhes dizer: "Cristo morreu pelos nossos pecados... foi sepultado, e... ressuscitou" (I Co.15:1-4) e se elas somente acreditarem em Jesus Cristo como seu Salvador, Deus tirará a sua culpa, deixando-as sem nada com que se sentirem culpadas.


Mas quantos crentes precisam ser lembrados da nossa posição sem culpa perante Deus também!  Que triste que o inexprimível sentimento de alívio e liberdade da culpa que experimentamos na hora que confiamos em Cristo desaparece quando nos colocamos debaixo da Lei e vemos que mesmo sendo crentes, somos incapazes de viver na santidade absoluta que a Lei exige.  Sentimentos de culpa se iniciam, e logo nos encontramos vivendo na derrota desprezível e no desespero, o tipo de sofrimento que Paulo descreve nesta mesma passagem (v.24).


É imperativo para a saúde espiritual do leitor que entenda que a palavra "culpado" por sua definição não é um sentimento, mas uma posição judicial.  E a posição judicial do crente é que ele já foi perdoado, justificado e até mesmo feito "justiça de Deus nele" (II Co.5:21).  E então quando permitimos que nossos corações sintam a culpa que as nossas cabeças sabem das Escrituras que não tem lugar nas nossas vidas, estamos convidando o tipo de angústia que Paulo descreve nesta passagem, uma carga devastadora que Deus nunca planejou para nós suportarmos.


Caro leitor, o próprio Deus está totalmente satisfeito com o pagamento que Cristo fez por todos os nossos pecados, passados, presentes e futuros.  Quando nós, como crentes nos sentimos culpados pelos nossos pecados estamos dizendo, com efeito, que não estamos satisfeitos com o Seu pagamento, fazendo com que o nosso padrão se torne mais alto do que aquele do Todo Poderoso.  Devíamos sentir remorso quando pecamos, remorso porque entristecemos Aquele que pagou nosso débito (Ef.4:30).  Mas Deus não quer que carreguemos a conseqüência emocional do nosso pecado (culpa) tampouco quer que carreguemos a conseqüência judicial do nosso pecado ao lago de fogo.  Graças a Deus que Ele nos salvou de ambos e temos somente que convencer nossos corações do que a nossa cabeça sabe ser verdade sobre isso, para gozar da indescritível "bênção" que Deus quer que experimentemos como Seus filhos perdoados (Rm.4:6-8).
 
"Então ao querer fazer o bem, encontro a Lei de que o mal reside em mim" (Rm.7:21).


Quando Paulo se colocou debaixo da Lei de Moisés, ele achou outra Lei, um princípio fixo tão certo quanto a Lei da gravidade, que quando queria fazer o bem, achava o mau presente com ele.  Devido à natureza caída que herdamos de Adão e que se tornou a nossa própria quando cometemos nosso primeiro pecado, sempre iremos querer fazer o mal quando nos é dito para não fazê-lo.  "A Lei suscita [gera] a ira" (Rm.4:15) e como a nossa natureza carnal declara, zangada: "Ninguém vai me dizer o que fazer!"
 
"Porque no tocante ao homem interior tenho prazer na Lei de Deus" (Rm.7:22).


O "homem interior" é o homem que Deus nos fez em Cristo, o "homem interior" que pode ser "renovado dia após dia" se ele for "fortalecido com poder pelo Seu Espírito" com a Palavra de Deus corretamente dividida (II Co.4:16; Ef.3:16).  Esta força pode vir somente com o reconhecimento da verdade paulina que diz: "não estamos debaixo da lei e sim da graça" (Rm.6:14-15).  Somente o homem interior que sabe que não é condenado pela lei pode se deleitar na Lei.  Mas quando perdemos a visão disto e nos colocamos debaixo da Lei, experimentamos o problema que Paulo descreve depois.

 

"Mas vejo, nos meus membros outra Lei que guerreando contra a lei de minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros" (Rm.7:23).


Qual é a outra Lei que Paulo viu em seus membros?  É a mesma Lei queoperava "em nossos membros a fim de frutificarem para a morte", quando éramos incrédulos (Rm.7:5).  E a lei, ou princípio fixo, que diz que quando nossa natureza caída é ordenada não fazer uma coisa, ela só dá movimento ao pecado (Rm.7:5).  Paulo diz que quando ele se colocou debaixo da Lei de Moisés, esta outra lei lutou contra a lei de sua mente.


A Lei da mente do crente é a Lei do homem interior que sabe que ela não é condenada pela Lei de Moisés e tem prazer nela (v.22).  É a "Lei do Espírito" a que Paulo menciona mais tarde (8:2). O Espírito e esta Lei habitam no homem interior, porque Paulo diz que "o vosso corpo é santuário do Espírito Santo" (I Co.6:19).  É interessante lembrar que em relação a isto Romanos 12:1 diz para apresentarmos nossos "corpos como sacrifício vivo, santo e aceitável à Deus, que é o vosso culto racional". 

 

Então, quando nos esquecemos da nossa posição não condenável em Cristo e nos colocamos debaixo da condenação da Lei, permitimos que este conflito tome lugar entre a Lei da nossa mente e a Lei da carne, que estão nos nossos membros, dando movimento ao pecado que nossa mente deseja evitar.  Quando isto acontece Paulo diz que somos feitos prisioneiros "da Lei do pecado" a qual está ainda nos nossos membros, mesmo agora sendo salvos e acabamos cedendo à iniqüidade.

 

A palavra "cativos" é uma palavra muito específica na Bíblia e é usada freqüentemente na Palavra de Deus, especialmente no Velho Testamento.  Lá, esta palavra muitas vezes se refere ao período de setenta anos que o povo de Israel foi preso, cativo pelos caldeus na Babilônia.  Acreditamos que Paulo escolheu esta palavra propositalmente e que há uma importante comparação com o nosso texto que ele gostaria que fizéssemos.  

 

Quando o povo de Israel estava no cativeiro não pararam de ser o povo de Deus.  Isto é, eles não perderam sua identidade como filhos de Deus, eles simplesmente não podiam mais funcionar como filhos de Deus.  Eles não podiam trazer seus sacrifícios ao Templo em Jerusalém, não podiam freqüentar as três festas anuais que eram obrigatórias para todo hebreu adulto masculino (Êx.34:23-24), etc.


Da mesma forma, quando o crente é levado cativo pela Lei do pecado, ele não perde sua identidade em Cristo. Ele simplesmente se torna incapaz de funcionar como "utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra" (II Tm.2:21).  Ele precisa retornar à sensatez "livrando-se... dos laços do diabo", porque está cativo por ele para cumprir "a sua vontade" (v.26) e dessa forma se encontra num tipo de cativeiro sobre o qual Paulo fala no nosso texto.  Crentes que então se colocam debaixo da Lei podem pensar que estão se ajudando, mas na verdade "eles se opõem" (v.25) fazendo assim.


É verdade que crentes que caem nesta condição podem retornar "à sensatez" (v.26), mas algumas vezes precisam de uma pequena ajuda.  Aquele crente espiritual que queira ajudá-los não deve ser contencioso, mas "deve ser brando para com todos... apto para instruir... com mansidão os que se opõem" (vs.24-25).  E amados, não há nada de humilde ou manso em relação à Lei!  E, portanto, sabemos que a Lei não é a solução para o problema do pecado em nossas vidas!

 

Aquele irmão que gostaria de ajudar aqueles que caíram em pecado deve ser "paciente" e "apto para instruir" sobre a graça de Deus, não sobre a Sua Lei.  Muito freqüentemente quando algum irmão cai no pecado, irmãos bem intencionados tentam ministrar a este com o rigor e a severidade da Lei, repreendendo-o duramente, se esquecendo que em muitos casos, é a própria Lei que o pecado usa para fortalecer o irmão transgressor no pecado.


Quando este escritor era menino, lembra-se de ter visto um filme intitulado Um Homem Colossal.  Após ser exposto à radiação atômica, um homem cresce 20 metros e fica louco.  Quando as armas convencionais falharam em conter esta ameaça à sociedade, um cientista propôs que se usasse o poder de fogo nuclear. Felizmente, outro cientista ressaltou que se foi a radiação nuclear que tinha causado o problema, uma explosão nuclear somente iria agravar a situação!


Do mesmo modo, se o pecado é um problema na vida do crente, antes de mais nada, a Lei de Moisés que Deus diz que fortalece o pecado, não seria uma solução adequada.  É a graça de Deus que nos ensina que "renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente" (Tt.2:11-12).   Falaremos mais disto quando considerarmos Romanos 8.
 

"Desventurado homem que sou. Quem me livrará do corpo desta morte?" (Rm.7:24).


A palavra "desventurado" significa "muito infeliz, afligido profundamente".  Recusamos acreditar que esta condição era a regra na vida do grande apóstolo, mas somente sua experiência quando ele falhava em se lembrar que não estava debaixo da Lei que o condenava, mas debaixo da graça.


A presença do pronome "eu" aqui (embora seja de forma oculta) leva-nos a observar que as palavras "eu", "me" e "meu", aparecem cerca de cinqüenta vezes em Romanos 7.  Que lembrete para nós de que quando tiramos o nosso foco de Cristo, e quem somos Nele, e centralizamos a nossa atenção em nós mesmos, sem dúvida experimentaremos toda a frustração e falta de esperança que Paulo descreve neste capítulo.


É importante notar aqui que quando Paulo fala "desta morte" ele está falando sobre "a morte do crente" que mencionamos antes em Romanos 6:16.  O pecado tem um efeito de amortecimento na vida do crente, um efeito do qual todos nós juntos com Paulo devemos querer ser livrados. 

 

Quem nos livrará do corpo desta morte?  Graças a Deus que existe uma resposta para esta pergunta.
 

"Graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor.  De maneira que eu de mim mesmo, com a mente sou escravo da lei de Deus mas segundo a carne a lei do pecado" (Rm.7:25).

 

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